
Mediei um bate-papo com Martha Medeiros durante a Letrópole, evento bem bacana promovido pela Fundação Marcopolo, que se encerra neste domingo. E o mais legal foi ver a escritora, que se ocupa das miudezas do cotidiano há décadas, revelar de pertinho a própria humanidade: alguma dificuldade em lidar com a tecnologia, uma preguiça de ter que aprender tudo sempre, a opção por expor apenas o necessário da vida pessoal, o desejo de escrever um livro de memórias e tratar de assuntos pessoais que ficam nos recônditos das memórias.
Falou, também, sobre a passagem do tempo — era uma guria de 24 anos quando lançou o primeiro livro de poesias e está com 64 anos, tendo mais de 30 obras publicadas, algumas adaptadas também em outras linguagens artísticas. Gosto, também, de pensar na urgência de dedicar tempo — que ironia — para viver no presente, para prestar atenção nas pessoas, para aproveitar o dia.
Mario Sergio Cortella, semana passada, no Simecs Transforma, fez um apanhado interessante sobre um assunto parecido. Usou vários exemplos literários, citou frases de efeito e, entre elas, um provérbio africano: “quando a morte te encontrar, que te encontre vivo”. Parece óbvio, mas esse vivo refere-se à possibilidade de estar desfrutando cada dia como se fosse a última oportunidade. Momentos muito especiais nos fazem parar o tempo — e essa sensação de que nada mais importa é maravilhosa, não?
O filósofo também refletiu sobre a sensação de que todos seremos substituídos — pela IA, num emprego, numa relação. Ninguém é insubstituível, é o que nos dizem. Mas, para ele, ninguém é substituível: só o que pode ser substituído é o que a pessoa faz, nunca o que ela é. Achei lindo.
Esse ideia distorcida se forma, talvez, por termos uma tendência natural a encontrar problemas em quase tudo. Ao os solucionarmos, acabamos encontrando novas situações para nos preocupar.
Lembro de uma pesquisa publicada anos atrás na revista Science, dizendo que redefinimos os problemas à medida em que eles são reduzidos. “Nossos estudos sugerem que, quando o mundo melhora, nos tornamos críticos mais severos dele, e isso pode nos fazer concluir erroneamente que ele realmente não melhorou em tudo. O progresso, ao que parece, tende a se mascarar”, escreve.
O pesquisador acredita em um fenômeno chamado “mudança de conceito induzido pela prevalência”. O resultado é que, quando um problema diminui, as percepções das pessoas sobre ele se tornam maiores, o que pode levá-las a perder o fato de que o resolveram.
Em um dos experimentos descritos no estudo, voluntários deveriam olhar para bolas na tela de um computador e classificá-las como roxas ou azuis. Conforme as bolas azuis foram sendo reduzidas, os participantes começaram a classificar como azuis as que anteriormente tinham considerado roxas. Conclui, então, que o cérebro não aceita a redução da prevalência das bolas azuis e acaba distorcendo a própria visão.
O que isso nos mostra? Que os problemas sempre vão existir, em maior ou menor grau, e vão ficar mais complexos – os tais aprendizados. A nós cabe contemplar miudezas do cotidiano, sem nos afastarmos muito de quem somos e, quando e se isso acontecer, ter algum referencial bonito para nos ajudar a retornar.
