
“Os seres humanos são incríveis, né?”, escreveu repetidamente Bruno, amigo estudioso do comportamento, em uma rede social. Ao lado da afirmação — porque não era uma pergunta —, ilustrava com histórias aleatórias e alheias, como a da senhora que viu a neve pela primeira vez e se empolgou muito. A magia está em todo lugar, a gente é que deixa de prestar atenção.
Peguei um Uber dia desses. Motorista monossilábico, som alto. Percebo que é venezuelano. A arvorezinha com perfume para o carro, pendurada no espelho retrovisor, tem a estampa da bandeira dos Estados Unidos. Ele tem um semblante sério. Durante a viagem curta, toca Manantial de Amor – que só descobri o nome porque aparecia no painel: Qué lindo es conocer a alguien/ Y sentir la impresión/ De que hace mucho tiempo/ Ya le conocías. Achei interessantíssimo, porque absolutamente tudo parecia estar em contraste naquele microespaço. Mas o estranhamento era só meu.
Fiz aula de cerâmica na semana passada, num ateliê lindinho no Vale dos Vinhedos. A professora, com 26 anos de experiência, contou da dificuldade enfrentada para centralizar a argila no torno. Sabe aquela cena poética, das mãos deslizando no barro e ficando sujas, enquanto objetos começam a ser criados? Parece fácil, mas diz que não é tão simples. Para conseguir usar o aparelho, ela resolveu testar o movimento ao contrário do que estava acostumada. Antes disso, precisou convencer as pessoas que mudar o jeito de fazer o trabalho era uma possibilidade. E foi quase mais complicado do que reaprender o processo do avesso.
Almocei ouvindo a história de uma senhora que trabalhou por décadas na casa de outra conhecida senhora da sociedade. E, em poucos minutos de conversa, contou que havia sido proibida pela patroa de usar o elevador, “para dar exemplo às outras empregadas do prédio”. Detalhe: ela subia até o 10º andar. Contou mais uma série de absurdos a que era submetida e, no final, resignada, aceitou esses anos de abusos porque tinha dois filhos para criar e precisava muito daquele emprego. E a boa reputação da dona da casa dissipou-se à medida em que a antiga funcionária falava.
Quisera que sempre fosse fácil assim mudar a percepção sobre as pessoas, ao conhecê-las um pouco mais — para o bem ou para o mal.
Talvez por isso tenha ficado mais reflexiva do que o normal, ao assistir a um vídeo com uma mulher evocando uma reflexão profunda: se perdesses a memória e precisasse pedir para alguém te lembrar de quem tu és, da forma mais verdadeira possível, a quem confiaria a missão? Quem conhece nossa versão mais verdadeira? Quem entende nossas contradições, vê harmonia no que parece estar em contraste? Acolhe nossas dificuldades e soluções improváveis para as situações? Quem toca nosso senso de humanidade?
Não é tão simples escolher o interlocutor, porque somos bastante complexos, de forma real ou metafórica. Seres humanos são incríveis mesmo, Bruno.
