
“A vergonha precisa mudar de lado”. Achei essa sentença fortíssima desde que a ouvi, juntamente com a história da francesa Gisèle Pelicot, que invadiu o noticiário mundial anos atrás. Para quem não lembra, ela é a mulher que foi estuprada pelo marido e mais de 50 homens contatados por ele para cometer o crime, depois de tê-la dopado. Ela só descobriu os anos de abusos quando foi chamada à delegacia e apresentada às fotos dela nua sendo violentada por desconhecidos. A história é estarrecedora e fica ainda mais impressionante narrada no livro Um Hino à Vida, que ganhei da Shirlei.
Sim, o li em uma sentada (sou do tempo que sentada referia-se à medida de tempo de leitura, risos). Em uma noite qualquer da semana passada, cheguei em casa por volta das 19h, recém-saída da redação e resolvi dar uma espiada no livro. Já estava curiosa pela história muito antes de tê-la em mãos. Resultado: fiquei lendo até chegar na última linha, sem conseguir parar. E depois fiquei sem conseguir pensar em outra coisa.
Narrada em primeira pessoa, a obra mostra a vida prosaica de Gisèle e Dominique, casados há meio século, até que ele é flagrado por um segurança de supermercado filmando por baixo da saia de três mulheres. Ela estava em Paris, cuidando dos netos. Eis que ele decide contar à esposa, aos prantos, a “bobagem” que tinha feito. Ela, por sua vez, fica estarrecida com a atitude do marido — não lembrava em nada o homem gentil que conhecia —, mas decide acolhê-lo e acompanhá-lo à delegacia. Só que esse crime parece minúsculo se comparado aos que o sucederam.
O que chama mais atenção do que o horror dos abusos é a forma escolhida por ela para enfrentar os fatos. Tendo vivido na Alemanha do pós-Guerra, tinha uma vida marcada por perdas e sonhos interrompidos. E talvez venha daí a força para encarar a situação. Durante todo o processo, ela tenta permanecer lúcida e, mais do que isso, apegar-se a uma ideia de felicidade prévia, sem deixar que o horror a mate por completo. Enquanto ela se depara com o pior do ser humano, faz a escolha de se reconectar com a vida. Escolhe mostrar o rosto e, por consequência, tem a conduta posta em xeque pela opinião pública. Sofre muito, mas decide se apegar aos dias ensolarados, para que as trevas não sejam o novo normal.
Para mim, essa foi a parte mais tocante do livro: alguém que tenta desesperadamente se lembrar dos bons momentos vividos, porque se eles forem apagados, ela não tem mais nada na vida. E talvez esse seja um exercício importante para todo mundo: buscar em si os motivos que dão algum tipo de esperança para sair da cama todos os dias, para acreditar nas pessoas, para se apaixonar e para não ter medo de viver, para não deixar o horror tomar conta. Estabelecer lampejos de felicidade e esperança, nem que seja por teimosia, tal qual as flores que nascem no asfalto.


