
É impressionante como alguns assuntos tornam-se onipresentes ao longo da semana. Por conta disso, não posso deixar de falar do show – épico – do Bad Bunny no intervalo do Super Bowl. A ode a Porto Rico e à cultura latina foi capaz de me transportar à infância. Como quase todas as gurias nascidas entre os anos 1970 e 1980, era muito fã dos Menudos e, especialmente, do Rick Martin. Mana, minha prima que vive em Lisboa, mandou mensagem ao longo da noite sentenciando: “viu como Ricky Martin tá ótimo?”. Em outro contexto, não faria o menor sentido. Mas sabíamos que, ali, estávamos, ambas, atualizando nossas versões de décadas passadas.
Ver Ricky no palco, um uma apresentação tão importante, me levou à época em que um dos meus sonhos era conhecer Porto Rico, mal tendo saído do Estado. Percebi como, facilmente, deixamos nossos desejos de infância para trás: já fui à Rússia, ao Japão, à Finlândia, ao Marrocos e nunca pisei na ilha caribenha. Ela sequer figura na minha lista imediata de desejos – e só me dei conta disso agora. Quanto da gente vai ficando pelo caminho, por conta das escolhas ou circunstâncias, que acabam nos distanciando das nossas aspirações mais singelas?
Fiquei com vontade de estar lá, até cotei o valor da viagem! Quem sabe ainda haja tempo de revisitar desejos antigos, de reorganizar prioridades, de incluir na lista aquilo que um dia pareceu essencial. Porque crescer não deveria significar abandonar quem fomos, mas integrar essas versões à pessoa que seguimos nos tornando, né?
Talvez por isso, tudo o que aconteceu naquele palco teve força e importância pra mim. O passeio e dança por corpos diversos, que muitas vezes estiveram à margem, mostraram uma recusa à uma norma que dita como devemos amar, vestir, desejar... Possivelmente seja justamente por isso que certas imagens culturais nos atravessam com tanta intensidade. Não se trata apenas de entretenimento, mas de representação, de pertencimento, de memória.
A mensagem projetada no telão – “A única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor” – era óbvia. Mas também necessária. Penso nas mulheres mortas pelos companheiros. E em como feminicídios – embora já sejam 13 no Rio Grande do Sul apenas em 2026 – comovam até a página dois. Penso no interesse que o caso Epstein tem suscitado nos últimos tempos e em como a objetificação de corpos femininos chega a ser banalizada. E em como essa escalada de violência – muitas vezes velada e silenciosa – aos poucos vai ganhando visibilidade.
Penso em como precisamos reforçar premissas de que o amor começa antes do encontro com o outro. Que começa pelo mais difícil: olhar para dentro, aceitar-se. Antes de amar alguém é preciso se amar – eis o único antídoto possível. Talvez essa seja a verdadeira revolução: a íntima, a silenciosa. A que exige coragem diária para romper padrões aprendidos, para desaprender violências naturalizadas, para sustentar afeto em tempos de brutalidade. Se o espetáculo foi grandioso, a transformação que ele evoca é microscópica e pessoal – mas não menos urgente.






