
Seis planos para colocar em prática em 2026. Três regras para o ano que se inicia. Quatro passos para organizar as finanças. Cinco dicas para melhorar a saúde. Neste primeiro final de semana do Ano-Novo, ainda dá para pegar o rescaldo das vibrações e promessas de mudanças do pós-Réveillon. Penso nisso e lembro dos quero-queros, que tenho ouvido sem parar nos últimos dias na chácara, que são o oposto disso.
Em um mundo que pede que sejamos resilientes e pacíficos, esse pássaro está na contramão do senso comum. Ele não é muito bonito, não voa muito alto, é desconfiado, mas defende o que é dele com uma energia absurda. Faz o ninho no chão, num lugar mais exposto possível — esses dias, vi um deles chocando ovinhos no meio de um canteiro, entre duas ruas. No caso, o macho cumpria essa tarefa, o que também achei incrível: ele se reveza com a fêmea na tarefa, para que ela possa eventualmente descansar. Mas tem na defesa do território o forte da atividade, não poupando esforços para proteger a prole.
O mais interessante, no entanto, é que o quero-quero banca a escolha de ter um ninho baixo e descampado. Se alguém chegar perto, grita muito e, se for preciso, ataca. Ele não se importa se o ambiente é hostil, se está sozinho ou se ninguém entende o que está fazendo ali. Apenas segue. Segue com firmeza, com convicção e, talvez, com teimosia.
Às vezes sinto falta, justamente, desse espírito de quero-quero. Estamos tão preocupados em não desagradar a ninguém que esquecemos de brigar pelo que vale a pena. A gente quer voar alto, não importa o preço que tenhamos que pagar. Só que, no fundo, não precisamos projetar voos altos, com destino incerto. Dá para voar mais baixo e convicto, protegendo o que, de fato, importa. Isso vale pra uma amizade, um amor, uma família, um projeto ou um tempo para ficar sozinha. Tanto faz. Dá para decidir pelo que vale a pena brigar, mesmo quando todos ao redor parecem desafiar nossa escolha.
Sei que todo mundo — inclusive eu — espera um 2026 tranquilo, leve e com poucos desafios que exijam energia e paciência para superá-los. Mas essa é a falácia de cada novo ano. Não dá para esperar a perfeição e, a essa altura da vida, todo mundo já entendeu que quem faz o ano acontecer é quem deseja que ele seja diferente — o desencadeamento poético dos dias não é orgânico. Exige intenção.
Aí lembro-me do quero-quero. Não faço ideia de quanta perfeição ele espera na vida. Ao que parece, no entanto, ele vive do jeito que consegue e arruma energia para defender as próprias convicções. Já decidi que quero ter a coragem barulhenta de ser quem eu sou. E se alguém tentar frustrar meus planos, quero poder gritar. E depois seguir — mesmo que em voo curto — protegendo o que me faz sentido.



