
Eu amo abóbora e não como tortéi. Amo doce e não bebo moscatel. Amo ficar descalço e coleciono sapatos. Amo viajar para longe e detesto voar. Amo massagem nos pés e não gosto que toquem no meu cabelo. Amo banoffee e não como banana. Amo tirar fotos e raramente as revelo. Amo escuridão com cordão mexicano e prefiro luz do sol. Amo boteco e não tomo cerveja. Amo imagens sacras e raramente frequento igrejas.
Existe alguma coerência nisso?
Precisa existir alguma coerência nisso?
O mundo nos condiciona a manter uma trajetória lógica. Mas lógica para quem? Escolhi sentenças bem prosaicas, que revelam bem pouco, para ilustrar que sou (somos?) um poço de contradições. Que as certezas, muitas vezes, não passam de suposições. E as verdades absolutas diluem-se nas primeiras contestações. Fernando Pessoa, nesta passagem do Livro do Desassossego, expressa a profundidade do paradoxo interno como parte da identidade e da consciência: "Vivo em perpétua contradição comigo mesmo. Sinto-me sempre múltiplo e dividido, com a alma desfeita em pensamentos contraditórios".
Acredito que ninguém pode ser definido por uma ou duas impressões superficiais, tampouco deveríamos julgar alguém sem saber pelo que o outro está passando. O "pai do verso livre" Walt Whitman, em Folhas da Relva, escreveu:
Eu me contradigo?
Muito bem, então, eu me contradigo.
(Eu sou vasto, contenho multidões)
Eis a síntese que celebra a complexidade do ser humano: a contradição faz parte da natureza de cada um. O enigma nunca se resolve por completo, mas que é essencial à experiência. Em Os Irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski aborda a contradição como parte essencial da alma: "O homem é um mistério. É preciso desvendá-lo, e se passares a vida inteira tentando desvendar, não digas que perdeste tempo. Ocupo-me desse mistério porque quero ser um homem".
Acolho a impossibilidade de sermos totalmente decifráveis. Ou previsíveis demais. Somos um apanhado de escolhas que nem sempre se explicam. E precisa? Aceitar que a coerência nem sempre é o melhor caminho. É justamente na contradição que aparece a possibilidade de continuar sendo.
