
A repercussão da divulgação do ranking de nomes e sobrenomes mais populares no Brasil, a partir do Censo 2022, mostra o fascínio que o tema suscita nas pessoas. Na quinta-feira, entrei no carro de um Uber chamado Richar (assim mesmo) e ele ficou muito interessado pela raridade do meu nome. Nunca tinha transportado nenhuma homônima minha e precisei explicar que não era um apelido, nem me chamava Patrícia.
Contei a ele que existem apenas 46 Trissias no país e fiz referência à lista recém divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele quis saber mais sobre o tema e, no curto trajeto, versamos um pouco sobre como nomes antigos – usei o exemplo dos meus avós paternos, Oddino e Zaíra – inspirariam mais confiança do que os recentes.
— Pensa chegar em uma oficina mecânica e ser atendido pelo seu Oddino? Certeza que ele saberia o que está fazendo! Agora, se for um Rael, não vai ser a mesma coisa... – disse o jovem falante, vestindo uma camisa do Grêmio — O time não dá alegrias, mas a gente não pode perder o bom humor — completou, deixando uma pequena lição no ar.
Rimos. Achei a maior graça das impressões dele. Esse interesse despretensioso — que pode virar um ponto de conexão entre as pessoas — serviu como pano de fundo para minha tese de doutorado em Letras, defendida em 2016. Pesquisei os nomes de batismo das crianças nascidas na Paróquia Santa Teresa entre 1875 e 2005 — num corpus formado por 57.168 —, analisando variações de gênero, recorrência e, também, as transformações sociais da comunidade nos períodos analisados.
Chama-se antroponímia a área que estuda os nomes próprios de pessoas. Para mim, é uma das divisões mais interessantes da Linguística. E esse interesse, claro, é bem mais antigo e anterior à própria sistematização da Linguística como ciência, o que só ocorreu nas primeiras décadas do século passado, a partir da visão estruturalista de Ferdinand de Saussure. Mas o que interessa a mim, mesmo, são as histórias por trás dos nomes — no meu caso, veio de uma personagem de um livro que minha mãe leu quando era adolescente. Gostou tanto que guardou para nomear a primeira das duas filhas.
Depois de ter acesso ao ranking, rapidamente o compartilhei com minha orientadora — que virou uma amiga querida —, Vitalina Frosi. Fiz uma pesquisa com o nome dela e descobri que são 5.750 no país — Caxias do Sul ocupa o 9º lugar na lista de mulheres homônimas a ela. Fiz outras várias experimentações sobre o tema, li matérias (tem texto da Alana sobre isso aqui nesse link) e me diverti com memes.
Nada melhor para ilustrar que o estudo dos nomes tem caráter interdisciplinar. São evidenciados aspectos linguísticos e culturais tanto de um indivíduo, quanto da comunidade onde vive. O próprio exemplo acima, da conversa dentro do carro de um desconhecido, mostra a possibilidade de perceber transformações socioculturais a partir da escolha dos nomes.
Para mim, é exatamente esse o encanto: um nome não se encerra em si, é uma espécie de mapa do tesouro. Quem se aventura a desvendá-lo sempre fica mais afortunado.



