
Eu colecionava papéis de carta e dia desses lembrei deles ao conversar com uma amiga da minha faixa etária. Eles eram lindos, coloridos e perfumados e eu os arrumava em plásticos dentro de pastas, que podiam ser movidas para lá e apara cá. Alguns envelopes tinham formato diferente, outros traziam estampa de bolinhas, nuvens ou balões. Podiam ser uma espécie de dobradura ou ter desenhos em glitter que, na época, chamava-se purpurina. Até isso mudou.
A coleção era um hábito quase estritamente feminino – apenas um colega, Roger, compartilhava da mesma diversão. Meus papéis nunca foram usados – e imagino que hoje, se ainda existirem, repousem em alguma prateleira na casa dos meus pais. Curiosamente, as dezenas de papéis de carta que eu e minha irmã tínhamos nunca serviram para mandar nenhuma carta – talvez até tenham virado um cartão amoroso para pai, mãe, vó ou vô, mas não mais do que isso. E dava até pena de usá-los.
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Minha prima Stê tinha uma boneca que, quando apertávamos na barriga, parecia assoprar um perfume muito gostoso, mas ela não deixava que a gente fizesse muito o movimento para que o brinquedo não perdesse o cheirinho. E acho que se ainda existisse, não o teria perdido. Quantas figurinhas de cadernos duraram mais do que as folhas pautadas? Na caixa de lápis de cor, aquelas com 36 unidades, eu amava a verde água e, por isso, tentava usá-la menos, para não precisar ficar apontando o lápis a toda hora.
Os exemplos são uma metáfora das economias sem sentido que fazemos na vida, pensando em uma fruição futura. Como se fossemos imortais. Como se pudéssemos estar aqui para sempre – bem como as pessoas ao nosso redor. Puro desperdício.
Perceber que a vida acontece apenas aqui e agora é uma das minhas lições de vida favoritas. Por que precisamos de uma ocasião solene para tirar da gaveta uma toalha bordada pela avó? Por que precisamos de uma festa para encher a casa de flores? Ou para abrir um champanhe especial? Ou para nos reunir com quem gostamos? Nesta semana, tomei café com uma interessante mulher na casa dos 60 anos, casada há décadas, que confessou acender velas todas as noites para jantar com o marido. Todas as noites, há anos, e não só nos aniversários de casamento. Pouco lindo?
Quantas vezes precisamos perder alguém querido para ressignificar os encontros e as relações? Para que economizar elogios, declarações de amor, agradecimentos? Fiquei com vontade de procurar meus papéis de carta, transformá-los em cartas de verdade e espalhar amor por aí. Quem me acompanha?


