
Acabo de assistir a um vídeo de um homem fazendo café dentro de um avião. Ele ajeita cuidadosamente o filtro sobre uma garrafa térmica, acrescenta o pó e pede um pouco de água quente aos comissários. Tudo isso acompanhado de um sorriso de canto, satisfeito por saber que há uma pequena plateia ao redor. Depois, ainda oferece o café para alguns passageiros. Diante de tamanho entretenimento, a pergunta que me fiz foi a mesma que encontrei em um dos comentários da publicação: será que ele faria isso se não tivesse onde postar?
Chamam isso de performance.
Vivemos nessa era em que tudo parece precisar de registro porque sabemos que existe uma plateia pronta para assistir. O curioso é que essa plateia já não se restringe às pessoas que conhecemos: qualquer vídeo tem a capacidade de furar a bolha e se tornar viral. Ainda usando o avião como exemplo, uma nova trend se espalhou recentemente, em que duas pessoas cantam separadas por diversas poltronas de distância. E eu aqui, do outro lado da tela, me perguntando se esse movimento de perder a vergonha é positivo ou não.
Na verdade, penso que ele é contraditório. Ainda nos fantasiamos com filtros disponíveis nas redes sociais, mas, ao mesmo tempo, uma outra parte se despiu de qualquer amarra sem pudor algum. Até porque, para chamar a atenção, é preciso beber do exagero. O exagero, aliás, parece ter deixado de ser exceção para se tornar requisito. São os famosos segundos iniciais de um vídeo que precisam prender quem assiste, mesmo que o conteúdo seja alguém gritando dentro de um shopping, comendo doze hambúrgueres em um minuto ou mergulhando vestido em uma fonte pública.
Eu adoraria que existisse uma única pergunta capaz de resumir tudo isso. Mas, para ser sincero, tenho várias. Se precisasse escolher a mais urgente, talvez quisesse entender quem é que, de fato, estamos tentando entreter. Ou melhor: será que esse é mesmo o objetivo?
Entreter? Distrair? Chamar a atenção?
E se for isso... De quem? Pra quê?
Fiquei tentando imaginar se teria coragem de preparar um café no corredor de um avião sabendo que várias pessoas me observavam. Percebi que minha primeira reação foi achar aquilo estranho — não pelo café, mas porque simplesmente não encontrei sentido. Deixando de lado a ideia de que nem tudo precisa ser levado tão a sério (ainda mais na internet), continuo sem me enxergar fazendo isso. Talvez essa festa simplesmente não seja para mim. O que ainda não descobri é se estamos fazendo cada vez mais coisas porque realmente queremos vivê-las ou porque alguém, em algum lugar, pode estar assistindo.



