
Neste final de semana completo dez anos como cronista do jornal. Quando a lembrança veio à tona, a primeira reação (e também a mais óbvia) foi pensar sobre tudo o que mudou de lá pra cá, revendo o que aconteceu e pela forma como eu e meu texto mudamos. Achei que seria fácil e simplório demais fazer esse exercício, então inverti a lógica e passei a pensar lá na frente: em dez anos, onde é que eu vou estar?
Já contei isso por aqui, mas foi dentro de sala de aula da faculdade que fui desafiado. Confessei que meu sonho no jornalismo era ser cronista de jornal, e após escutar quão difícil seria realizar isso, aceitei que essa seria a missão. Até que, dois anos depois, ela se concretizou. Seria meio batido e sem tanta graça dizer que não imaginei ficar dez anos ininterruptos escrevendo aqui, assim como dizer que “passou tão rápido”.
Existe essa mágica em observar como o tempo passou sem fazer o exercício contrário de imaginar como ele vai passar daqui pra frente. Por vezes, sinto que já escrevi sobre tudo aqui — do sanduíche da minha bisavó ao comportamento humano observado por diferentes perspectivas. Fui do grão de poeira que perambulou pelo ar e me motivou a escrever sobre o invisível ao desastre natural que mudou a gente de alguma forma enquanto sociedade.
Ser cronista é isso, no fim.
É tecer a colcha com os retalhos espalhados e ignorados por aí.
Nas outras vezes, penso que ainda tenho muito a dizer. Pra ser sincero, existe uma listinha no bloco de notas do celular com tópicos e temas a serem abordados. São ideias, devaneios, coisas que talvez nunca vinguem. Porque ser cronista também é saber que alguns olhares vão morrer antes de virar palavra.
Em dez anos, quero olhar pra este texto e pensar que um dia escrevi dez anos para um jornal sem pausas. Se estarei fazendo isso há vinte ou se terei me julgado redundante e desinteressante no meio do caminho, ainda não sei. Também tem a possibilidade de me mandarem embora a qualquer momento, é claro. E essa acho que é mais uma das delícias deste fazer: até quando vou durar?
A crônica no jornal impresso é descartável. Acredite, em uma década já recebi diversas fotos de cachorros usando a minha página como banheiro. De certa forma, acho uma honra — a prova de que uma crônica tem diversas utilidades. Em contraponto, tenho cada vez mais recebido foto de textos meus em provas e concursos que ultrapassam as fronteiras do Estado. Então, no fim, talvez a gente permaneça um pouco. Seja no digital, seja no batismo feito pelo cachorro, seja na companhia de um concurseiro, seja na senhora que me mandou um e-mail pra destrinchar o assunto abordado neste final de semana, seja na memória de quem lê e de quem escreve.
O tempo é só o caminho que escolhemos percorrer. Enquanto ele existir, permaneço.


