
Tem aquela ótima do Legião que diz que “temos nosso próprio tempo”, e acho que foi sobre isso que tenho pensado recentemente. O estopim foi a partir de uma outra frase, essa dita por um amigo: ele cravou que “a gente é mais rápido do que o nosso próprio tempo muitas vezes”. E aqui nem estou levantando pauta sobre estarmos acelerados (até porque isso é óbvio), mas sim talvez digerindo a ideia de que a gente se condicionou a burlar o nosso tempo.
Se olho pelo retrovisor e encontro tudo que realizei até aqui, me assusto e me questiono sobre quando tive tempo para fazer tanta coisa. Talvez eu só tenha acumulado tarefas em cima de tarefas sem nem aproveitar o processo de cada uma delas. Ao menos, já aceitei que não entreguei os melhores resultados em todas elas, até porque, aqui sim, entendi que não sou máquina. Mas, então, por que agi como se fosse?
A frase do meu amigo veio justamente quando eu disse: olha só, acho que agora não é o melhor momento, vamos deixar esse projeto para depois?
Estou certo de que ele entendeu o subtexto.
Aceitar que não damos conta de tudo faz parte do kit de sobrevivência – ou, ao menos, deveria. Se a vida que estampamos por aí é cheia de filtros, que façamos uso deles para escolher o que deve e o que não deve ser vivido. Não como algo determinante, mas como algo estratégico mesmo. Agora não, talvez depois, quem sabe outra hora, vai ter que ficar pra mais tarde.
É aquela velha ideia de saber escolher as suas batalhas. E isso é um desafio e tanto se pensarmos que estamos inseridos em uma sociedade hiperprodutiva que demanda exaustão e parece nunca descansar. Mais do que se dar ao luxo, entender que não podemos correr mais do que o nosso próprio tempo é uma questão de gentileza. É, antes de olhar para a pilha de projetos, olhar para si e se perguntar se damos conta.
E tudo bem se não der.
Estou certo de que existe até uma certa maturidade em reconhecer isso. Nem toda oportunidade perdida está realmente perdida. Nem sempre podemos trabalhar com a ideia de que “precisamos agarrar a chance” porque ela “não passa duas vezes”. Prefiro pensar que algumas até se aproximam para nos testar, e que ali na frente elas aguardam uma versão nossa que consiga recebê-las com mais presença.
Até porque, existe uma honestidade avassaladora e urgente no respeitar-se.




