
Metade da graça de uma Copa do Mundo cabe dentro de um pacote de figurinhas. Penso nisso porque me lembro da infância, quando abrir pacotinhos já era um evento por si só. A parte divertida não era necessariamente ver tudo colado no álbum, mas a expectativa de descobrir quais cromos viriam dentro dele. O mesmo acontecia com os brinquedos do Kinder Ovo. De alguma forma, o prazer do inesperado sempre nos acompanhou. A diferença é que hoje temos tantas escolhas que talvez estejamos cansados delas — por isso mesmo, terceirizamos o ato de decidir.
Basta observar a quantidade de serviços que prometem exatamente isso. Livros escolhidos por desconhecidos; Vinhos enviados sem que o assinante saiba qual rótulo receberá; Restaurantes que servem menus-surpresa. Até os algoritmos passaram a desempenhar esse papel, sugerindo o próximo filme, a próxima música, o próximo vídeo. “O que virá na sequência?” é uma ideia que seduz porque sabemos que as opções são infinitas — assim como o “scroll” que fazemos na tela, deslizando o dedo sem nunca atingir o seu fim.
Esta minha reflexão ganhou forma durante o Brain Congress, evento que reuniu milhares de profissionais da Neurociência em Porto Alegre na última semana. Em uma das mesas, a roteirista e escritora Rosana Hermann observou que estamos “anestesiados de tanta escolha que agora precisamos e queremos que escolham por nós”. Imediatamente lembrei das vezes em que fiquei encarando a televisão por longos minutos, esperando que o filme perfeito saltasse da tela do streaming. O mesmo acontece nos aplicativos de comida, onde tantas possibilidades acabam atrasando o pedido em si.
Na mesma discussão, o psicólogo e historiador Felipe Pimentel provocou a plateia ao falar sobre nossa crescente preferência pelo que é abreviado. Faz sentido. O celular colocou uma infinidade de opções no bolso, mas também nos acostumou à velocidade. Queremos mais alternativas, porém dedicamos menos tempo a cada uma delas.
Talvez seja por isso que as experiências às cegas carreguem tanto fascínio. Não se trata apenas de receber uma recomendação qualquer, trata-se de abrir mão da responsabilidade de escolher. Por alguns instantes, alguém assume o volante e nos devolve algo que a abundância de opções foi tirando aos poucos: a possibilidade de sermos surpreendidos.
No fim, não é muito diferente do que acontece com um pacote de figurinhas e da expectativa que o antecede. Engraçado pensar que um dos luxos contemporâneos seja justamente este: voltar a não saber. A não decidir.
Por favor, escolha por mim. Ou melhor: me surpreenda.





