
Até o Cristo Redentor tem haters. Descobri isso ao navegar pelas avaliações no Google. Entre comentários sobre quem não gostou da cor da escultura e quem achou o local pouco interativo, há um padrão curioso: até aquilo que é considerado uma maravilha parece sempre incompleto para alguém.
A mesma lógica aparece em outros lugares. A Muralha da China, por exemplo, sofre com a ausência de um carrinho de cachorro-quente no meio do caminho (segundo o usuário Paulinho1234). Já as Cataratas do Iguaçu são criticadas por um defeito ainda mais grave: “molham demais”. No fim, se nem as sete maravilhas escapam de uma estrela, talvez o problema não esteja nos lugares, mas na expectativa de encontrar perfeição na realidade.
Interessante pensar que talvez isso não seja tão novo quanto parece. Se analisarmos bem, o carrasco sempre existiu. Durante séculos, ele usava capuz e executava sua sentença diante de uma praça cheia. Era um papel definido, quase ritualístico: alguém precisava cair em desgraça para que a multidão assistisse. Hoje, essa lógica não desapareceu — apenas se espalhou e mudou de ambiente. Muitas vezes, o rosto continua oculto atrás de perfis anônimos; outras vezes, ele está ali, exposto, com nome e sobrenome.
Antigamente, o suplício exigia deslocamento. Era preciso reunir a multidão, erguer o palco, acender a fogueira. Hoje, praticamos uma espécie de “suplício em EAD” — expressão que ouvi do psicanalista e historiador Felipe Pimentel, em uma palestra no Brain Congress. Agora, a diferença é logística, não estrutural: cada curtida, cada compartilhamento — tudo pode funcionar como lenha adicionada ao fogo. A execução continua pública, apenas mudou de endereço: a praça agora cabe na palma da mão.
Durante todos esses anos, gostamos de acreditar que abandonamos as fogueiras. Mas talvez tenhamos apenas trocado a lenha pela conexão de internet. Continuamos nos reunindo para assistir à queda de alguém. Continuamos apontando dedos. Continuamos transformando pessoas em personagens simples demais, divididos entre culpados e inocentes. Somos nós que estabelecemos a sentença final (e parece que cada um está pronto para dar seu pitaco a qualquer momento).
No fim, o pulo do gato não está em culpar as redes sociais. Está em admitir algo mais incômodo: sempre gostamos de julgar, perpetuamos esse hábito, e ainda continuamos acendendo fogueiras.





