
Guarda-chuvas e livros têm algo em comum: são esquecidos sem alarde. Às vezes lembramos tarde demais que deixamos um guarda-chuva para trás; outras vezes, nem lembramos quando (ou com quem) um livro ficou. Talvez porque funcionem bem como ausências — não fazem falta imediata, não cobram, não mandam mensagem. São as ausências mais silenciosas possíveis. Ficam onde foram deixados, cumprindo um papel que também reconhecemos em algumas pessoas que passam por nós: presentes em determinado momento, ausentes no seguinte. Não por crueldade, mas por circunstância.
Um livro esquecido raramente volta. Existe um acordo silencioso de que reivindicá-lo é deselegante demais para o valor do objeto. Isso quando lembramos onde ele foi parar. Assim, o livro passa a cumprir outra função: a de testemunha. Ele fica ali, na estante de alguém, como um inquilino sem registro. Presente o bastante para não ser esquecido, distante o suficiente para não ser devolvido.
Claro que nem todo esquecimento carrega uma metáfora. Às vezes a cabeça está cheia demais para se lembrar de um simples guarda-chuva. Às vezes o objeto não tem valor sentimental algum — e isso basta. Nem tudo que fica para trás quer dizer algo maior. Algumas coisas apenas são perdidas porque, independentemente do que for, as perdas trazem um recado valioso: nem todo desprendimento precisa de uma despedida.
Ou seja, nem tudo o que sai precisa avisar. Há pessoas e coisas que simplesmente deixam de estar. Não por desinteresse, mas porque permanecer também exige uma forma de presença que nem sempre é possível. Às vezes, ir embora é só a consequência natural de não caber mais. Outras vezes, é apenas o mundo seguindo, sem pedir licença. E se estamos acostumados a ritos de passagem que funcionam como marcos simbólicos para términos e despedidas, nem sempre a vida oferece essa gentileza.
Talvez o esforço esteja menos em interpretar o esquecimento e mais em aceitá-lo. Nem toda ausência é falta. Algumas coisas — e algumas pessoas — precisam deixar de ser exclusivamente nossas para continuarem existindo. Há afastamentos que não nascem de rupturas, mas de circunstâncias. A partir dali, seguimos caminhos distintos, tornando-nos, pouco a pouco, parte da vida de outros. E o tempo, como sempre, cuida do resto.






