
Nunca quebrei um braço quando criança. Nascido nos anos 1990, sei que isso me coloca no time das exceções. Naquele tempo, era quase um rito de passagem encontrar um colega de escola com gesso no braço ou na perna — testemunhos em branco de aventuras mal calculadas, árvores subidas depressa demais, quedas de bicicleta, disputas no campinho, e por aí vai.
Estou delirando ou essa cena anda rara? Não lembro a última vez que vi uma criança exibindo um gesso assinado pelos amigos. Desde que me dei conta disso, aliás, passei a me perguntar o motivo.
A resposta é simples e, ao mesmo tempo, assustadora: as crianças continuam quebrando, só que outras coisas.
Se antes o risco maior era cair do muro, agora tornou-se desabar em si. Nos últimos anos, cresceu o número de diagnósticos, rótulos e ansiedades que não faziam parte da infância de décadas atrás. Não porque não existiam, mas porque não tinham espaço para aparecer. A queda, antes física, hoje é oculta e interna.
Estudos recentes evidenciam o crescimento dos transtornos mentais entre crianças. Já preocupantes, os números provavelmente são ainda maiores, considerando que nem toda infância tem acesso ao diagnóstico formal.
Hoje, antes mesmo de correrem o risco de quebrar um braço, algumas crianças já carregam fraturas invisíveis. São dores quietas, sem sirene, sem compressa, sem gesso. Nada anuncia o impacto. Às vezes, nem elas mesmas entendem onde dói — apenas aprendem a conviver com o incômodo, como quem ajeita um sapato apertado sem saber dizer qual parte que machuca.
Os motivos não são poucos – e quase todos fazem parte do cotidiano que construímos para elas. Lá (não tão) atrás, normalizamos uma superexposição digital desde cedo. A brincadeira livre perdeu espaço para as telas, tão temidas quanto inevitáveis. Muitos pais, exaustos pelo próprio formato de mundo que criamos, tornaram-se emocionalmente indisponíveis sem querer. Soma-se a isso a pandemia: anos formativos vividos no isolamento, seguidos de um tipo de bullying que não se restringe à escola. Tudo isso compõe uma sociedade que, sem perceber, acelera a infância até que ela tropece em si mesma.
Talvez as quedas de hoje doam mais justamente porque não deixam marcas aparentes. E, enquanto não aprendermos a enxergá-las, teremos muito mais trabalho do que envolver um braço em gesso e esperar pela melhora. Quebrar por dentro é um ato silencioso — quase sempre imperceptível num primeiro momento. E, quando percebemos, descobrimos que o cuidado é mais longo. Ao contrário do gesso, não há um prazo exato para que tudo volte a firmar.





