
Sempre me senti um polvo. Ao menos nos últimos 14 anos, que é o tempo em que tenho trilhado a minha carreira. Falo isso porque a ideia de ter oito tentáculos parece combinar com o tanto de demandas que precisam ser supridas — e, por vezes, seria ótimo ter mais braços ainda. Eu poderia dizer que nesse meio tempo já fiz de tudo, mas estaria mentindo porque sei que sempre vai existir uma ideia que ainda não coloquei em prática. Então eu digo que fiz quase de tudo. E fiz porque precisava fazer para existir.
Ao longo da vida, inevitavelmente a gente escuta aquela frase meio duvidosa: “quem faz de tudo, não faz nada direito”. Eu a escutei anos atrás, e também sei que não foi a última. Naquele momento, passei a me questionar se eu realmente fazia tantas coisas de vertentes e responsabilidades tão distintas que, no fim da história, eu não fazia uma única coisa bem feita. Até cheguei a cair nessa armadilha algumas vezes, acreditando que eu teria que me focar em um único ponto, alguma tarefa estratégica que eu me debruçaria com exclusividade. Confesso: eu quis tanto isso! Seria uma bênção ter conseguido realizar uma única coisa visando a sua maestria.
De lá pra cá, no entanto, parei de me culpar. Fiz isso porque passei a perceber que tudo aquilo que eu fiz, todas as ideias que coloquei em prática, todos os perrengues que passei, toda aquela lista infindável de afazeres, tudo isso teve que ser cumprido por mim porque éramos eu e eu mesmo. O que ninguém conta é que no começo você não tem essa liberdade e poder de escolher o que deseja fazer, então sim, em algumas fases da vida a gente vai atirar para todos os lados porque de algum deles algo haverá de florescer. Acabamos fazendo um pouco de tudo porque se não as contas não se pagam, a roda não gira, o movimento que a vida espera da gente não existe — e aí deixamos de existir junto.
O autoperdão é tão bem-vindo que hoje eu me agradeço por ter feito tudo aquilo que fiz. Foram tantos projetos de um homem só, tantas noites mal dormidas, tanta loucura criativa que, mesmo debaixo de umas trinta tempestades, sobrevivi. Na semana passada realizamos a abertura da Feira do Livro, um evento que existe há mais tempo do que eu mesmo existo neste mundo. Pra minha surpresa, a vida me presenteou: sou o mais jovem patrono da história.
Estranho seria não ter feito tudo o que fiz. Não fosse isso, talvez hoje eu nem estaria aqui.






