
Tenho sentido meus tapetes mais altos do que o de costume. É como se, ao pisar, houvesse debaixo deles uma camada desconfortável, irregular, algo que não deveria estar ali — mas que, por algum motivo, foi parar. Com o tempo, a curiosidade me fez levantá-los e dar uma espiada: por lá, acúmulos e mais acúmulos que só foram varridos porque eu não sabia exatamente o que fazer com toda aquela sujeira.
Sei que não é exclusividade minha. Ainda bem! Já visitei tantas casas de tapetes estufados, quase ondulados, e conheço pessoas que certamente também conseguiriam surfar dentro da própria sala. Só que, em algum momento — geralmente quando tudo já anda caótico por natureza —, os declives e desníveis entregam um tombo jamais previsto. E aí não resta alternativa senão aceitar: é preciso botar fora o que já não deve permanecer do lado de dentro.
Recolher os tapetes e encarar toda a sujeira escondida não é fácil. É um enfrentamento — consigo, com os outros, com os problemas que juramos ter deixado de existir. Pois bem, não deixaram. Apenas se ocultaram. Ou melhor: foram ocultados.
Varremos medos e incertezas para debaixo do tapete porque acreditamos que podemos resolvê-los depois. E até podemos. Mas aquela massaroca parece se autorreplicar quando ignorada. O que era um simples grão de poeira vira uma bola de pelos que provoca espirros diários e por aí vai. O “não resolvido” não só pesa: ocupa espaço, expande-se.
Debaixo do tapete foi parar o receio da atitude que adiei ano passado; Foi parar a briga mal resolvida com um antigo amigo; Foi parar a certeza de que aquele não foi meu dia e de que eu deveria ter vivido cada luto — porque ignorar as pequenas mortes diárias é morrer em dobro ali na frente.
Meus tapetes estufados, então, não só passaram a destoar da decoração da sala, como também escancararam uma verdade incômoda: minha sujeira só depende de mim para ser limpa — e o tapete só disfarça até certo ponto.
Antes de outro tombo, então, decidi pegar a vassoura e fazer faxina. Primeiro em mim, depois debaixo de todos os tapetes. Sem mais relevos desnecessários por aqui.





