
Tenho cutucado algumas feridas que há tempos mereciam cuidado. São rasgos feios, daqueles que desviamos o olhar ou que tentamos minimizar com curativo ou maquiagem. Mesmo tendo aprendido que qualquer encobrir só serve como remendo, e que a cura vem a partir da provocação e do enfrentamento, adiei o tratamento de algumas lesões porque a cura sempre vem precedida pela dor — a qual muitas vezes não estamos aptos a lidar.
Penso que sou feito das minhas cicatrizes e, de certa forma, sinto orgulho da maioria. Mas até que elas possam de fato virar cicatrizes, é necessário submergir o rasgo — físico ou emocional — e reparar em cada vestígio para entender porque certos traumas insistem em resistir. Dentro de cada ferida, camuflam-se histórias que não queremos que sejam lembradas, e se prestamos atenção com cautela, ainda conseguimos escutar os sussurros de um ontem que preferíamos que nunca tivesse existido.
Como o psicoterapeuta Carl Jung defendia, há que se tornar consciente a escuridão. Porém, a trilha até a cura (ou, pelo menos, um remendo que aos poucos tende a cicatrizar), é quase sempre aterrorizante. Não há um percurso delimitado, não existem atalhos a serem tomados (até existem, mas aí se perde o objetivo), e, dentro da ferida, não há mais ninguém a não ser a gente. Somos nós cavando cada vez mais fundo, e ao mesmo tempo que a dor martela, o sentido de doermos como doemos aumenta gradualmente. Ainda na esfera da psicanálise, Freud dizia que o trauma não tratado retorna lá na frente como sintoma — e eles são tantos que parecemos esquecer de onde é que surgiram.
Sorte que do lado de fora existe ajuda. Imagino amigos e família e psicólogos e psiquiatras e terapeutas dos mais variados tipos como alpinistas, todos prontos para se lançar ferida adentro caso o resgate seja necessário. Não perceber-se sozinho, mesmo em uma cura individual, é vital. Seja na fé, seja na religião, seja no curandeiro ali da esquina ou na palavra amiga que estende a mão quando queremos desistir e afundar ferida adentro: de alguma forma, precisamos retornar à superfície.
É uma jornada e tanto. E ela se repete várias vezes ao longo da vida porque, quem sabe, a vida seja sobre isso mesmo: mergulhar no desconhecido que somos, encontrar a outra face dos medos e dos traumas, encará-los acreditando que, se fazem parte da gente, somos plenamente capazes de enfrentá-los e vencê-los. No fim, de volta à superfície, a ferida passa a se fechar porque a luz não precisa mais entrar por aquele rasgo. Ali dentro, já não existe mais escuridão.





