
“Mama África, a minha mãe”. O primeiro verso da famosa canção de Chico César pode enganar aos que pensam que a África é continente ancestral apenas da raça negra. Na verdade, somos todos filhos da África. Foi lá que surgiu a espécie sapiens, a nossa espécie, uma dentre outras do gênero humano, há milhares de anos.
Aos que orgulhosamente se assumem hoje como descendentes de europeus, é bom lembrar que, na primitiva Europa, a espécie de humanos que ali se desenvolveu, os neandertais, desapareceu por completo do mapa há estimados 40 mil anos. Assim, os europeus sobreviventes descendem dos sapiens africanos que para aquela região migraram.
Desde criança sou fascinado pelas ciências que investigam nosso passado humano. Tanto que meu herói preferido segue sendo Indiana Jones, em suas aventuras pela história, pela antropologia e pela arqueologia. E por falar em arqueologia, foi em 1856, numa pedreira do vale do rio Neander, na Alemanha, que foram encontrados ossos e crânio de um estranho humano.
Os fósseis eram semelhantes a outros já localizados em diferentes regiões da Europa. E pelo local da nova descoberta, a espécie humana em questão foi batizada de Homo neandertalensis – ou neandertais. Eram menores em tamanho que os sapiens, mas muito mais encorpados e fortes, talvez por adaptação ao clima muito frio da Europa e Ásia ocidental.
O crânio do neandertal era um pouco maior que o do sapiens, com a testa avançada para a frente e o nariz mais largo. Mas, se os neandertais eram mais fortes, por que teriam sido extintos? Essa questão ainda gera contínuos debates. Teria havido miscigenação com os sapiens? Ou uma guerra genocida, com a vitória de nossa espécie?
Em seu best-seller Sapiens, o historiador israelense Yuval Harari aposta na superioridade cognitiva de nossos antepassados. Linguagem e imaginação mais valorizadas teriam permitido a supremacia dos sapiens no período de convivência entre as diferentes espécies humanas. E só restou a nossa em todo o planeta.
Em 1981, o francês Jean-Jacques Annaud lançou o extraordinário filme A Guerra do Fogo, que já vi dezenas de vezes — porque sempre o exibia nas aulas de História da Comunicação. Ali as diferentes espécies são retratadas com suas distinções físicas e culturais, evidenciando a criatividade e a sociabilidade dos sapiens. Esse filme está disponível no YouTube.
Todo esse preâmbulo da crônica, em que viajamos no tempo com a imaginação, confirma o valor do conhecimento em nossas vidas. E o que quero mesmo é lembrar que começou a Feira do Livro em Caxias do Sul, essa celebração da evolução da mente pela reflexão e pelo saber. Ignorar esse evento cultural é como negar as luzes que o saber nos traz.
E quero indicar com toda ênfase o brilhante romance Os Imortais, da brasiliense Paulliny Tort. Foi a minha melhor leitura neste ano. A história acompanha uma tribo de neandertais na luta pela sobrevivência, com direito a um confronto mortal com sapiens e à inclusão de uma menina sapiens no bando. E adianto: a saga neandertal no livro diz muito do nosso mundo atual.





