
Quando estreou o filme nacional O Agente Secreto, em 2025, toda gente se encantou com o colorido dos automóveis vistos em cena. Era assim na década de 1970, quando se passa a história do filme, que já começa acompanhando o trafegar de um lindo Fusca amarelo.
Pois bem: o tempo passou e a estética mudou, ao sabor de novos valores. E há que se lamentar o empobrecimento da cartela de cores dos carros modernos, em sua maioria padronizados entre o preto, o branco, o metálico e o cinza, com o vermelho e o azul em proporções menores.
Um vendedor de automóveis confirmou: cores neutras saem muito mais rápido. Um modelo amarelo, ainda que de uma máquina potente e valiosa, pode purgar um longo tempo na loja. Sobre as cores variadas e fortes da década de 1970, ele explicou que, naquela época, era comum a compra do “carro da família”, feito para durar. Ninguém investia num auto para ser vendido pouco adiante, como mera especulação.
Ou seja, hoje compra-se um carro também já pensando em logo depois trocá-lo por outro — e convém agir no senso comum, mirando o perfil conservador do próximo comprador. Que loucura, não? Nosso gosto é moldado menos pelo que nos identifica e mais pelos ditames do Senhor Mercado!
Reparo que a sisudez como padrão estético se estende às fachadas das casas e edifícios. Não é de hoje que fico incomodado, por exemplo, com a proliferação de prédios comerciais baixos, com no máximo um mezanino, e revestidos com mármore preto ou cinza. Quase sepulturas do bom gosto, penso eu.
Um amigo arquiteto contou-me que tais prédios, comuns nas esquinas centrais de Caxias do Sul e repartidos em vários pontos comerciais, são assim pensados pela facilidade de serem demolidos, caso se deseje ocupar o espaço com outro tipo de edificação. Bah! Se a modernidade é mesmo líquida, em que tudo é efêmero, parece que até a arquitetura deixou de ser sólida!
Outro dia passei a pé pela Avenida Itália, que já foi a minha favorita no quesito encanto arquitetônico, quando vim morar em Caxias, há mais de 30 anos. E não a reconheci mais! Com apenas duas quadras, aquela avenida reunia um ecletismo maravilhoso, com habitações do modernismo dos anos 1950 ao lado de remanescentes das casas de madeira de antanho. Um luxo no visual!
Mas quase tudo se acabou ali, sob a força da grana que, no caso, mais destrói do que ergue coisas belas. Cadê a casa de madeira com a placa de costureira? Cadê o belo jardim da ampla casa da esquina? Cadê a própria casa da esquina? A avenida perdeu em colorido — e em alegria. E só tenho a lamentar, como romântico barroco que sou.
Ah, isso de ser barroco de nascença! Seria destino de nordestino? Adoro cores quentes e vibrantes, emanações diretas da luz solar. Por sinal, vi numa postagem uma lista das cidades mais belas do Brasil segundo estrangeiros. Todas coloridíssimas — e quase todas barrocas. Quem sou eu para discordar, né?
Ei, Senhor Mercado, nada contra o progresso nem contra o movimento de tudo, mas um pouco mais de diversidade cromática faria um bem danado a esse mundo já tão triste e cinzento.



