
Em 1870, um ano antes de morrer aos 24 anos, o poeta baiano Castro Alves lançava Espumas Flutuantes, seu único livro em vida. Logo nas primeiras páginas aparecia o conhecido poema O Livro e a América. Inspirado pelos ideais racionais e humanistas do Iluminismo, o poeta exaltava ali o conhecimento e a liberdade como elementos civilizadores, simbolizados, respectivamente, pelo livro e pelo Novo Mundo. E abençoava o saber: “Oh! Bendito o que semeia / Livros... livros à mão cheia / E manda o povo pensar!”.
A América, na visão do poeta romântico, era a promessa de um futuro que superaria as guerras e opressões da velha Europa. Não mais espadas sangrentas nem templos feitos de ossos, mas o livro como ferramenta de progresso: “Quando ante Deus vos mostrardes, / Tereis um livro na mão: / O livro — esse audaz guerreiro / Que conquista o mundo inteiro”. Nada parecia deter o poder desse gerador de pensamentos, qual vento a fazer a igualdade voar.
Leitor de Castro Alves, o paulista Monteiro Lobato, em 1918, fez história ao investir forte no livro, criando a primeira editora brasileira. Antes os livros eram impressos na Europa, as edições eram caras e voltadas à elite de um país de maioria analfabeta. Lobato pôs o livro a circular em toda parte, lançou edições com projetos gráficos modernos e a preço acessível. De olho na formação de leitores, foi também pioneiro na literatura infantil no Brasil, ao criar o universo do Sítio do Pica-Pau Amarelo. É dele a frase: “Um país se faz com homens e livros”.
Hoje, a depender das tantas ações em torno dos livros, é como se o sonho iluminista de Castro Alves tivesse sido realizado. Livros à mão cheia são enfim colhidos. E como na visão de Lobato, há publicações para todos os níveis de leitores e para todos os bolsos. Mas há ameaças ao altaneiro voo do condor da liberdade que um dia encantou o poeta.
América já não nomeia o vasto continente do Novo Mundo, mas apenas uma de suas nações que se arvora em ser dona de todos os mundos. E por lá, os senhores da guerra — que preferem o voo de mísseis ao do pensamento — estendem seus alvos também... contra os livros! Milhares de títulos são seguidamente retirados de bibliotecas e escolas públicas. E a censura ataca prioritariamente obras cujas temáticas envolvam feminismo, racismo e sexualidade.
É a inversão de tudo o que um dia fez daquele país — fundado sob o Iluminismo — um modelo para outras nações. Pior: virou modelo para os países que, assentados no ódio, investem nas crenças e nas mentiras contra o pensamento crítico — e a favor de tiranias. Como fazer o povo pensar, ó condoreiro poeta, se dogmas reativos — lá, aqui e acolá — tentam manipular até a educação?
Oh! Benditos os que fazem do livro e da leitura luzes contra a escuridão do fanatismo e da dominação pela mentira! Enquanto houver livros livres, haverá futuro. Pois disse Castro Alves: “O livro caindo n’alma / É germe — que faz a palma, / É chuva — que faz o mar”. E o gaúcho Mario Quintana provocou: “O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler, mas não lê”.




