
Numa noite bem fria deste inverno, um amigo convidou-me para uma sopa de agnolini em sua casa. Seria um encontro com outros amigos dele, a maioria desconhecida para mim. Levei um vinho, cheguei tímido, a cozinha cheia de barbados em prosa solta — pelo improviso da ocasião, esposas e crianças não aderiram. Imaginei: se começarem a falar da Série A e dos atacantes do Brasileirão, entrarei mudo e sairei calado, por minha ignorância futebolística. Não imaginei o quanto a noite poderia ser surpreendente.
Fui apresentado ao grupo, todos muito simpáticos, na vibração sempre gentil e agregadora do dono da casa. Logo eu estava a comer pinhões assados na chapa do fogão a lenha. Meu vinho ficou fechado, pois fui servido de outro, feito em produção artesanal por um dos convidados. Uau, que néctar! Aquele raro garrafão estava guardado há anos, disse ele. E o tinto na minha taça se revestiu de ainda mais sabor — e do valor daquela generosidade. E meu resto de timidez se dissipou.
Sopa pronta, fomos para a grande mesa rústica. Doze pessoas, alguém contou. Treze, aliás, com o anfitrião — e não faltaram alusões à Santa Ceia. De fato, havia ali algo de sagrado na forma fraterna como cada convidado se abria aos demais, evitando as comuns panelinhas de grupos heterogêneos num mesmo ambiente. Veio a salada de alface e radicci, tudo fresquinho e bem temperado com vinagre colonial. Vieram os pãezinhos também coloniais, macios e saborosos. E chegou o famoso lesso, as carnes de gado e frango cozidas juntas para gerar o caldo da sopa. Bah! O que era aquilo de bom?
Meu amigo explicou a origem do frango, caipira, comprado de uma velha senhora num bairro. Também a carne vinha de um açougueiro conhecido. E o cozimento durara horas, sem pressão, como na tradição dos imigrantes italianos. O resultado de tanto cuidado estava ali, à mesa, ao paladar de todos. Quando chegou a sopa fumegante, fui o primeiro a perguntar: onde achas esse agnolini tão pequeno e tão bem fechadinho? Na colônia, por óbvio. Até o crem, a raiz forte perfeita para a sopa, tinha boa procedência. Não havia mesmo como o pecado da gula não dominar a todos.
Nutridos os corpos, as almas contentes desataram a falar. Mas nada de assuntos como crenças ou política. Nada que sabidamente pudesse gerar as divisões que se extremam por aí em trincheiras de ódio e solidão. Foi então que percebi o elo comum a todos, a partir do perfil do anfitrião: o amor profundo e respeitoso pela Natureza — assim, com maiúscula. Ouvi relatos apaixonados de trilhas e aventuras, sonhos de novos horizontes e a gana comum por um mundo mais são.
Todo o zelo do meu amigo pela pureza do jantar não foi um artifício de etiqueta, mas uma extensão do que ele é de berço. E todos os convidados pulsaram desde o peito na mesma sintonia. Sim, antes do que o que nos separa, há o que nos une: uma cultura, uma cidade, uma convivência no tempo e no espaço. E cabe a cada um de nós alegrar essa partilha de vida.
Quando saí dali, até mesmo a noite gelada sobre Caxias do Sul não parecia tão fria assim.





