
Já que só se fala na antiga Grécia, por conta do filme A Odisseia, aproveito o gancho para trazer à cena a figura de Aidós. Não era bem uma divindade grega, mas uma entidade, ou conceito superior, que personificava a vergonha e o respeito que impediam os humanos de cometerem erros. Aidós era o oposto de Momo, o espírito do deboche e da zombaria tão conhecido em nossos carnavais. Se perder a vergonha até faz parte das folias momescas, convém tê-la como guia no cotidiano para uma vida decente — e isso já se aprende (ou aprendia) no berço doméstico.
Está lá, numa das mais famosas canções de Lupicínio Rodrigues: “E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou”. Na popularíssima Vingança, Lupi, com essa frase, destacava a vergonha como código de conduta pessoal. Ter pudor era assumir uma atitude de respeito para merecer o respeito alheio. Mas já vai longe o sentido de honra do tempo do Lupi. O tempo de agora parece ser o da falta total de vergonha como tendência coletiva. É o descaramento como atitude.
Em recente artigo na Folha de S. Paulo, a jornalista portuguesa Mafalda Anjos diz que vivemos a era da “pós-vergonha”. E define a vergonha, à luz da sociologia, como uma emoção que promove a regulação social antes da lei. Evitamos “dizer ou fazer coisas que ofendem e chocam os outros, porque nos sentimos embaraçados”. E essa preocupação inata com a aprovação exterior seria base da vida coletiva. No entanto, segundo Mafalda, “hoje, os sem-vergonha estão por todo o lado”.
Nas redes sociais e nos palanques, a horda dos sem-vergonha com orgulho investe na “lacração” para ganhar seguidores, ou eleitores, ofendendo e atacando sem noção de limites. A mentira e o cinismo deslavados soam impunes, pelo endosso do aplauso dos ressentidos, que não demoram a formar uma bolha de identificação. E pronto! Eis a falta de vergonha como representação de certa parcela da sociedade.
A degradação da política — como espelho de uma mais ampla falência moral — vem promovendo e empoderando legiões de desavergonhados. Ter cara de pau é tudo, em práticas ensinadas por gurus imorais. Se destilam preconceitos e hostilizam minorias, alegam liberdade de expressão. Se pegos na mentira, mentem de novo negando tudo. Se roubam, com expostas provas do delito, desconversam ou jogam a culpa em outros. E como nada precisa fazer sentido, geralmente defendem projetos autoritários atacando a mesma democracia que lhes permite ter voz.
Claro que a hipocrisia na sociedade e a demagogia na política são tão velhas quanto o homem. O problema é que isso tudo virou epidemia. Talvez consequência das redes sociais, que deram largo espaço ao “idiota da aldeia”, como nos alertou Umberto Eco há muito.
O que fazer diante dessa era da “pós-vergonha”? Não sei — pois até a educação é alvo dos sem-vergonha. Só sei que fui criado, como o velho Lupi, para ter pudor, para exigir respeito e saber respeitar. E urge, pelo bem do país e do futuro, a união reativa dos cidadãos que ainda sentem nas faces o rubor da vergonha. Ou não haverá país nenhum.


