
Se eu disser que foi “uma odisseia” chegar a certo lugar, quem me ouve entenderá que tal jornada foi no mínimo turbulenta. Se ouvirmos o adjetivo “homérico”, o deciframos logo como algo superlativo, colossal. Quando falamos em “canto de sereias”, nossa alusão será a uma versão tão sedutora quanto enganosa de alguma coisa. E se procurarmos o sentido da antiga expressão “de Cila para Caríbdis”, vamos saber de algum problema cuja solução leva a outro problema.
Esses são alguns exemplos da influência do poema épico Odisseia, do nebuloso bardo grego Homero, em nossa linguagem e em nosso imaginário. É um dos textos mais importantes — e antigos — da cultura ocidental, porque, ao lado do poema anterior também atribuído a Homero, Ilíada, inaugura a literatura europeia.
Estima-se que ambos foram vertidos da linguagem oral para a escrita entre 800 e 700 anos a.C. Registram, portanto, muito da concepção de mundo dos gregos antigos. Deuses e humanos aparecem em situações exemplares da formação social que nos fundou. De modo perene, Ilíada e Odisseia ainda falam de nós e seguem inspirando as artes, a história, a filosofia, a psicanálise.
Se Ilíada narra a parte final da Guerra de Troia, Odisseia acompanha o retorno para casa do rei Odisseu — nome latinizado depois para Ulisses —, após a vitória dos gregos sobre os troianos. E convenhamos, Odisseia é muito mais fascinante que Ilíada. Toca-nos mais fundo o sofrimento de um homem querendo voltar para perto de sua família após 10 anos na guerra do que carnificinas e artimanhas bélicas.
A estrutura narrativa do poema é sensacional. Odisseu só vai dar as caras no capítulo cinco. Antes, acompanhamos a situação de seu reino, a ilha de Ítaca, 10 anos após o fim da guerra — e com o rei já ausente há 20. Telêmaco, o jovem herdeiro, parte em busca de notícias do pai, enquanto a fiel Penélope, tida por viúva, tenta livrar-se dos tantos pretendentes à sua mão e ao reino.
A história segue entre idas e voltas no tempo e no espaço, mantendo nossa atenção tão presa quanto o desventurado Odisseu à cólera do deus Poseidon. Quando entra em cena, depois de muito sofrer e de ter perdido todos os companheiros, o herói já vive há sete anos na ilha da possessiva deusa Calipso, que o tomara por amante. Odisseu tem ali a vida que todo mortal sonharia, entre delícias de toda sorte. Ah, mas a dolorida saudade de casa e dos seus...
Sim, é também um livro sobre afetos e lealdade. Relendo-o, chorei comovido em muitas passagens. E vibrei com situações envolvendo criaturas fantásticas — como o ciclope Polifemo, a feiticeira Circe, os terríveis gigantes lestrigões, os monstros Cila e Caríbdis, as perigosas sereias — e com a descida de Odisseu ao reino dos mortos e o encontro com o espectro da mãe, com tudo, enfim, que só cabe no que bem entendemos como odisseia.
Louco que sou pelo livro em verso ou em prosa, espero ansioso o próximo dia 16, quando estreia o filme homônimo — e homérico — de Christopher Nolan. Qual Odisseu, conto as horas para imergir de novo nesse reino que é tão ancestralmente meu.



