
Se me pedirem para apontar o objeto que considero mais importante em minha vida, nem pensarei no prato, no copo, na roupa, direi logo que é o livro. Tem sido assim desde menino, talvez por conta da minha natureza geminiana, mental e curiosa. Ou talvez por eu pertencer a uma geração para a qual conhecimento foi sinônimo de livro. Mesmo quando vieram outras vias de acesso ao saber, como as mídias eletrônicas, eu já estava por demais afeito às publicações gráficas, e a elas me mantive fiel.
Como somos muitos os que amam os livros, existe a palavra bibliófilo para nos designar. E como bibliófilo, eu deveria estar muito contente com toda a movimentação atual em torno dos livros. Mas algo me inquieta aí, e falo disso adiante. Antes devo louvar o que deve ser louvado. Repare como os livros vêm dando o que falar, quiçá como saudável contraponto, ou reação, aos problemas do excesso de estímulos virtuais. Cada vez mais gente parece estar descobrindo, ou redescobrindo, o papel curativo da leitura silenciosa e atenta — de um livro — contra as dispersões, superficialidades e ansiedades das telas.
Livros estão na moda. Concorridas festas literárias se alastram pelo país. Livrarias conceituais e cheias de personalidade são abertas com sucesso. Programas de televisão reúnem escritores e leitores em debates. Nas redes sociais, influencers de livros se tornam celebridades. Grupos de leitura presenciais ou on-line são criados continuamente. Clubes de assinantes lançam edições luxuosas exclusivas de clássicos ou inéditos. Clássicos, por sinal, aparecem nas listas de mais vendidos como se novidades fossem. E todo esse contexto tem sabor de encontros sociais, com o livro a nos resgatar do renitente isolamento pandêmico. Ah, que bênção, não?
Por que, então, minha inquietação? Evoco uma cena do antigo humorístico Os Trapalhões. Didi Mocó nos fazia rir ao mostrar que a pilha de livros numa estante do cenário era apenas uma caixa de madeira pintada: livros de mentira, pura fachada. Também me vem cena mais recente, dos tempos da covid, em que, nas seguidas lives sobre qualquer assunto, alguém inseria um fundo de tela – falso, é claro — com prateleiras cheias de livros. Ora, livros remontam a conhecimento, e parecer inteligente sempre dá cartaz — e rende likes e “farma aura”.
Eis o que me angustia: será que parecer leitor, hoje, motiva mais que ser realmente leitor? As pessoas estão lendo mesmo — e entendendo — os livros dos quais se dizem íntimos? Dados da pesquisa nacional Retratos da Leitura no Brasil, divulgados em 2025, revelam que, pela primeira vez desde que o tema começou a ser sondado, há mais brasileiros que não leem livros (53%) do que os que leem (47%). Os que alegaram não ter tempo para ler somam 46%. E houve aumento da taxa dos que passam mais tempo na internet do que lendo livros.
Pois é, amigos bibliófilos, é cedo para comemorar as iluminações de consciência que o livro traz, apesar dos bons sinais. O sonhado leitor crítico ainda está em gestação. Nascerá? Pela importância do tema, essa prosa continua.


