
“Que seria de mim, meu Deus / Sem a fé em Antônio?”. Assim começa a canção Santo Antônio, gravada por Maria Bethânia no disco Brasileirinho, de 2003, em louvor ao mais popular santo do catolicismo, festejado em 13 de junho. Que espouquem, então, foguetes e brilhem rojões coloridos, pelo santo e pela cantora! Pois também é tempo de o Brasil festejar Bethânia, que completa 80 anos no próximo dia 18.
Mas voltemos ao disco, ouvindo, na sequência, Padroeiro do Brasil: “Em toda casa tem um quadro de São Jorge / Em toda casa onde o santo é protetor”. E retomando o clima junino, a faixa seguinte exalta São João, sincretizado no orixá africano Xangô: “Ah, Xangô, Xangô menino / Da fogueira de São João / Quero ser sempre o menino Xangô / Da fogueira de São João”.
Nessas e noutras canções escolhidas a dedo, a baiana de Santo Amaro da Purificação evoca elementos culturais de um Brasil interiorano e ancestral. Surgem folhas sagradas, tambores de sabedoria e resistência dos negros, tantas ricas heranças de indígenas e caboclos das matas, tudo costurado, feito um grande rio, por citações de poemas e prosas de outros amantes desse país mestiço.
Num certo trecho, Bethânia, que sempre cantou também o amor, cita João Guimarães Rosa: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. E antes de o disco terminar com a Melodia Sentimental, de Villa Lobos, a cantora recita Vinicius de Moraes: “Vontade de beijar os olhos da minha pátria / De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...”.
O lindo Brasileirinho é apenas um dentre mais de 50 álbuns gravados por Maria Bethânia desde 1965. Já são mais de 60 anos de uma carreira sempre autêntica e exitosa e que jamais se curvou ao mercado. Parafraseando o Rosa, digo que qualquer disco de Bethânia, qualquer canção na voz dela, já é um pouquinho de saúde cívica, um descanso na loucura ao redor.
Desde que se lançou, em tempos sombrios, bradando o canto do carcará, Bethânia sempre se fez chama de farol — ou fogo mesmo de liberdade. Já ali o poeta Vinicius reconhecia: “Tudo é combustão nessa extraordinária cantora cuja voz nos veio da Bahia, para transmitir uma mensagem de amor e poesia como raramente acontece”.
Em antiga entrevista, ela mesma se espelha, como o Brasil, numa pluralidade sincrética: “Eu tenho muita fé em Dona Iansã e tenho a mesma fé em Nossa Senhora da Purificação. (...) Minha personalidade é muito misturada e o meu signo também, que é Gêmeos. (...) Eu misturo tudo mesmo, eu misturo amor, misturo religião, misturo repertório, misturo tudo na minha vida. (...) Porque eu sou uma pessoa verdadeira”.
Sim, Maria Bethânia é a verdade do Brasil profundo, aquele Brasil de raiz forte e em luta eterna contra os próprios avessos. E nesse tempo de patriotismo às avessas, eu quero mais é um banho cheiroso com as folhas poéticas e éticas de Bethânia. Para me lembrar do que sou e do que me faz brasileiro.
E que Iansã e Nossa Senhora da Purificação abençoem a Abelha Rainha da música brasileira! Pois que seria de nós, meu Deus, sem a arte de Bethânia?

