
Há crônicas que saem a fórceps. Esta parece ser uma delas. Ocorrem quando falta assunto ao cronista, ou pior, como agora, quando há trocentos temas à espreita mas nenhum o agrada tanto a ponto de vencer os demais em disputa. É quando aparece a manjada alternativa de falar da dificuldade em si. Em mais de 20 anos nesse ofício de, como diria Rubem Braga, “viver em voz alta”, já passei por esse conflito incontáveis vezes. E aprendi que o melhor é não forçar, apelar para a velha sinceridade com o leitor e tentar sondar o próprio caos.
Vamos lá, Nivaldo, relaxe. Deite-se neste divã imaginário, feche os olhos e apenas respire calmamente. Isso. Preste atenção no ar enchendo e saindo dos pulmões. De novo. Outra vez. Agora vá percebendo o contato do corpo inteiro com o divã, a partir dos pés. Avance devagar sua percepção pelas pernas, costas, braços e, por fim, a cabeça. Se vierem os pensamentos confusos, perceba-os, mas deixe-os ir. Apenas experimente essa quietude do corpo deitado em conforto. Quando se sentir bem sereno, fale do primeiro assunto que vier.
Hum, o primeiro assunto é a minha recente jornada a pé ao Santuário de Caravaggio. Dois amigos me convidaram a ir bem antes dos dias oficiais de romaria, e topei. Sem outros caminhantes na estrada, prestamos mais atenção à paisagem. Havia a linda luz de outono sobre nós, os parreirais já naquela explosão de cores às vésperas da hibernação, um friozinho na medida do estímulo. Em certo trecho, havia pinhões sob uma araucária à beira da estrada. É tempo de pinhões na Serra gaúcha! Eis outro dos assuntos.
Perguntei a um desse amigos como ele tivera a ideia de acrescentar pinhão cozido e moído à receita de tabule que costuma preparar. Foi por acaso, disse ele, havia pinhão em casa e o trigo estava pouco. Assim, ignorou o trigo, e o prato de origem árabe ganhou um raro sabor local e virou campeão de elogios. Nisso duas curicacas passaram voando sobre nós. Comentei que o nome de tais aves vem do mesmo termo guarani “curi” que designa a araucária, já que as curicacas costumam dormir no alto dos pinheiros nativos.
Chegando ao santuário, transcorria a missa das onze. Uma imagem de Nossa Senhora de Caravaggio estava no adro da igreja. Embora não houvesse explícitas motivações religiosas em nossa caminhada, rezei baixinho. Pedi paz para o mundo, pedi calma para vencer o dragão das ansiedades que tenta nos devorar todo dia. E ali lembrei da minha mãe. Talvez pela proximidade do dia delas, ou por sugestão da imagem da santa eleita mãe divina de tantos. E foi assim que esse assunto entrou também na pauta de uma possível crônica.
Ah, eu quis dar conta disso tudo com grandeza: da sagração da natureza, das coisas do outono e de maio, das mães. Especialmente quis escrever sobre minha mãe, naquela saudade incurável de quem já partiu. E deu nisso: travei. Depois de desembaraçar esse novelo mental, imagino agora uma mãe maior, celeste, com o amor de todas as mães que já se foram, a no aconselhar: Devagar, crianças, sosseguem essa cabeça e esse coração. Amanhã será outro dia.





