
Li, já não sei onde, sobre um tempo em que a gente se distraía com qualquer novidade nas ruas. Era o tempo de “um Brasil bobo e bom”, dizia o texto, e guardei na mente essa frase. O que me encantou nela não foi a nossa suposta inocência perdida, mas uma disposição, quem sabe ainda viva, para o encanto com as coisas mais banais do cotidiano. Parece que a força do capital, com sua avidez por resultados práticos e por ganhos contínuos, andou nos livrando dessa inata pulsão brasileira de apenas viver com graça apesar dos próprios fardos.
Parece também que os simulacros de realidade oferecidos pelas redes virtuais, a deslocar viciosamente as atenções para as telinhas dos celulares, terminaram por nos afastar dos cenários reais em que a graciosa banalidade da vida costuma se revelar. Pensando nisso, senti saudades de viajar. É quando as inéditas paisagens nos abrem para os encantos mais singelos. E na falta de viagens literais, ponho-me a recordar deliciosas cenas prosaicas desse Brasilzão bobo e bom.
Numa praça da cearense Juazeiro do Norte, ouço o som de uma gaitinha de boca entoando Asa Branca. Eis um maduro vendedor de coloridos algodões doces, ciente do efeito sonoro para atrair a criançada. Como viu que eu o observava, vem a mim, e elogio sua performance no realejo. Ele então conta que sempre apelou para o som em seus trabalhos. Quando vendia gás pelas ruas, batia com um ferro no botijão, “assim: tem-tem-tem”. Quando vendia casquinhas, usava uma matraca. E agora, com algodão doce, “assopro umas músicas nesse apito”. Então abre um sorriso, volta a tocar Asa Branca e segue adiante sob o sol do sertão.
Perto de uma igreja em Dourados, no Mato Grosso do Sul, chama-me a atenção um carrinho cheio de orquídeas, acoplado a uma bicicleta. O vendedor é um alagoano muito simpático usando óculos de lentes grossas. Puxo prosa, numa cumplicidade de nordestinos, ele conta que tem orquídeas de todo tipo, das mais simples às mais raras. As mudas vêm do viveiro de uns chineses, nas redondezas. E por que vender orquídeas? “Ah, quem compra flor é gente de paz”. E me olha feliz com os olhos amiudados pelo grau dos óculos.
É domingo, quase meio-dia, mas o velho pescador ainda trabalha no barco ancorado num canal da Lagoa dos Patos, em Pelotas. Eu o cumprimento e tiro fotografias, assumindo a condição de turista. Ele remenda as redes com grossas linhas de náilon. Precisa corrigir os furos por onde as tainhas possam escapar, explica. Sabe tudo daquele mar doce; pesca desde os dez anos. E vida de pescador é assim mesmo: na folga das águas, há sempre o que fazer em terra.
E outras cenas me invadem: pássaros bicam pitangas maduras acima de um muro de Diamantina, em Minas, enquanto, num banco de praça, um jovem enamorado, com a cabeça no colo da mocinha, deixa que ela, carinhosamente, lhe esprema os cravos da face. E vejo o poente alaranjar Brasília. E cai a noite sobre o burburinho da esquina da Ipiranga com a São João. Aqui e agora, eu apenas sonho com a urgente volta desse Brasil desarmado — tão delicado, tão bobo e tão bom.



