
Todo mundo já assistiu a algum filme em que o personagem, vindo de experiências terríveis de carências ou perseguições, chega aos Estados Unidos, de navio, e depara com a Estátua da Liberdade. A emoção é sempre intensa. É uma cena que evidencia o mito do país como terra de oportunidades e, claro, de liberdade. A nação foi fundada assim, a partir dos ideais iluministas, como defensora incondicional da dignidade humana. Pois bem, que filme hoje incluiria a cena da esperança imigrante sem parecer tremendamente irônico e até de mau gosto?
As migrações, sabemos, são um dos temas mais urgentes e espinhosos da geopolítica contemporânea. Mas aqui não compete a um simples cronista discorrer sobre as razões e implicações desse fenômeno global. O que cabe, sim, na ligeireza da crônica, é olhar a própria paróquia pela janela. E Caxias do Sul, assim como a nortista América que se fez a partir de sonhos migrantes, também se construiu em base semelhante, como a primordial Mérica de pobres expatriados em busca de dignidade para trabalhar e prosperar.
Respeitadas as narrativas peculiares, o Monumento ao Imigrante é feito a Estátua da Liberdade de Caxias do Sul. É símbolo maior da cidade e síntese da história que a define. O casal do monumento — ele mirando ao longe um horizonte de possibilidades de ação laboral; ela com um filho no colo, pilar da família como célula social —, à beira de uma rodovia federal, ressoa como um pórtico para quem chegue com força nos braços e entusiasmo para construir-se e construir.
Tem sido assim, e cada vez mais. Tanto que a maioria da população caxiense há muito já não descende dos colonos italianos que um dia fundaram a cidade. Estes deixaram os sagrados mandamentos que associam liberdade ao trabalho, agora seguidos à risca por Silvas, Santos, Pereiras e tantos sobrenomes do Brasil e de fora. Mas imagine se, por um desses desatinos da sempre ameaçadora estupidez humana, como o que hoje envergonha a Estátua da Liberdade, alguma liderança venha a ofender o Monumento ao Imigrante ao propagar a xenofobia...
Hum, isso já aconteceu. E os estragos, como todo discurso raivoso, reverberam longe e por tempo demais. Nos últimos anos, sempre que retorno à Bahia, vem algum conhecido perguntar como posso ainda viver num lugar que detesta baianos. Eu explico que não é nada disso, que não cabe estender uma fala infeliz à voz múltipla de uma cidade que ainda pulsa na veia matriz das migrações. No entanto, o problema maior está mais perto: no quanto o preconceito e a desinformação ainda podem nutrir a xenofobia paroquial.
Por todo esse contexto, e por minha própria condição de migrante, foi irrecusável o convite para eu dirigir o documentário Olha Eu Aqui! – Nordestinas na Serra Gaúcha, que estreia no próximo dia 15, na Sala de Cinema do Ordovás, em Caxias. Um destaque do curta é trazer o olhar de mulheres migrantes, como se a senhora lá do Monumento ao Imigrante pela primeira vez contasse sua história. Precisamos falar muito disso — por mais respeito e cidadania, e para não dar solo a novas sementes de ódio.






