
Reparo na data de publicação desta crônica, 14 de março. Minha memória apita: é o aniversário do poeta Castro Alves. Sou conterrâneo dele, nascemos no mesmo atual município baiano de Cabaceiras do Paraguaçu, daí que, na primeira escola, a gente tinha obrigação de saber de cor a biografia do grande poeta de nossa terra. Recitar poemas de Castro Alves também era de lei no encerramento do ano. Até nossos pais eram convidados.
Eu devia ter uns oito anos, e me coube declamar A Cruz da Estrada, em que o poeta falava da abandonada sepultura de um escravizado que apenas na morte encontrara a liberdade. No dia da apresentação, o poema estava na ponta da língua, mas, tão grande quanto meu amor pela poesia era a minha timidez. E ao perceber trocentos pares de olhos sobre mim, tremer foi inevitável.
Sem olhar ninguém, fui seguindo o decoreba até o meio do poema: “Dentre os braços da cruz, a parasita, / Num abraço de flores, se prendeu”. E empaquei: cadê virem os versos seguintes? Deu branco. E eu vermelho, a suar. Não sei quanto tempo durou meu silêncio, talvez um milênio. Foi quando soou a voz da professora, em volume quase baixo: “Chora orvalhos a grama que palpita”, e eu, de imediato, repeti a frase e retomei o fio: “Lhe acende o vaga-lume o facho seu”. E fui até o final do poema. Vieram aplausos, que achei de pura consolação. Ainda sinto o ardor das minhas envergonhadas orelhas.
Aqui puxo outro assunto, que adiante ligarei ao anterior: o livro Odisseia. Tinha me prometido relê-lo antes da estreia, em julho, do filme que Christopher Nolan rodou com elenco de estrelas. E o fiz recentemente. Como é que pode um livro escrito uns 800 anos antes de Cristo ainda nos dizer tanto? E ainda ser tão sensacional também na forma com que a história do desventurado herói Ulisses é narrada! É um dos marcos inaugurais da literatura ocidental.
Supostamente escrita pelo grego Homero — de quem nada se sabe mas muito se especula —, Odisseia faz par com Ilíada, que conta a parte final da Guerra de Troia. Ambos os gigantescos poemas — Ilíada com 15 mil versos, Odisseia com 12 mil —, antes de serem vertidos em texto pelo tal Homero, eram — veja só! — declamados em público pelos aedos, os menestréis do mundo antigo, mestres da oralidade.
Imagino um desses aedos, de cítara em punho, a recitar por horas a fio a saga de Ulisses entre ciclopes, sereias e deuses irados, encantando as plateias nos palácios ou nas praças. No livro, quando se encontra entre o povo feácio, Ulisses, ainda sem revelar sua identidade, escuta um menestrel já a contar seus feitos no episódio troiano. Ou seja, na trama da Odisseia, a Ilíada já estava sendo narrada de ilha em ilha.
Espanta-me a memória prodigiosa dos antigos aedos, contadores das histórias — anteriores à escrita — que nos moldaram como ocidentais. E eu, que já travei num único verso de Castro Alves? Penso no quanto atualmente já não decoro nem números de telefones. Aliás, aqui ao lado, meu celular se denuncia — como minha útil memória eletrônica e como o maior inimigo da memória natural.



