
Para concluir meu inventário das comidas que conheci e passei a apreciar em Caxias do Sul — fundamento gastronômico da assimilação cultural deste migrante baiano —, porei sobre uma mesa imaginária tudo o que o paladar evocar. Depois de enfatizar a culinária de herança imigrante, é hora de encher os olhos e a boca com o que sai das tradicionais brasas gaúchas. Afinal, a terra do churrasco é o nirvana dos carnívoros.
Como não ir ao céu da gula diante de uma fatia de picanha com fina moldura de gordura? A culpa por comer a gordura vai depender de cada um, mas que é bom, isso é. Em Caxias eu descobri o mérito secreto de carnes não tão nobres — e já falei antes da costela —, a ponto de hoje eu preferir, sem vacilar, uma lasca de vazio ou maminha ao metido filé mignon.
Aqui fui saber que o salsichão assado não é apenas uma mera entrada ao churrasco. Também vira prato principal, com pão cacetinho e uma saladinha, quando de uma reunião de amigos mais informal. Caxiense de lei sabe até onde se produz o melhor salsichão da região — e eu também já sei. Ah, e atire o primeiro osso quem não salivar diante de um carreteiro com sobras de churrasco. Ou com o arroz de china, pobre ou rica.
Ainda no quesito pança cheia, devo citar o famoso xis, corruptela carinhosa e local do planetário cheeseburger. Já comi xis em outras partes do Rio Grande do Sul, e posso assegurar: nenhum supera o caxiense. Aliás, repare que a palavra xis está contida na palavra Caxias! A heresia de prensar o sanduíche já com o alface dentro — queimando a folha, claro —, muito praticada no xis de Porto Alegre, por exemplo, já dá motivo aos caxienses para defender o próprio modo de preparo, com o alface fresquinho.
Famílias inteiras são vistas nos “xis” comendo xis. Sim, a fama do sandubão bem bão fez com que os próprios restaurantes que o servem sejam também chamados genericamente de “xis”. E todo mundo sabe quais os melhores xis da cidade, e tem os seus favoritos. Também tenho os meus, onde sempre peço o xis da casa, com hambúrguer, ovo, presunto, queijo, tomate e alface. Dispenso milho, ervilha e batata palha — ei, de onde saiu essa mania de acrescentarem esses ingredientes em tudo? Não precisa, né?
Falando em dispensar, não aderi a tudo o que provei por aqui. Detestei morcilha e o tal “queijo” de porco. E fujo de espumantes em geral. Adoro vinhos, aprendi a conhecê-los aqui (e isso rende uma crônica futura), mas meus buchos não bateram com os espumantes. Por mais finos que sejam, dão-me refluxos e azias. Então, sem borbulhas, brindo à vida com os ótimos vinhos tintos. Dos brancos, somente o moscato, gelado.
Em minha mesa imaginária, há os queijos preferidos: serrano, colonial e grana. Para a sobremesa, há café no bule, grôstoli, sagu com creme, ambrosia e pudim de leite bem curtido. A torta de bolacha está vetada: não acho graça. E já esperando o café da tarde, há pão colonial, figada e uvada. E um grande pote de nata — outra delícia que só se acha por aqui.
E é assim na mesa caxiense: a gente come já pensando na próxima refeição.



