
“Aonde vamos agora?”, perguntou-me o ator Wagner Moura num fim de noite de novembro de 1999, em Caxias do Sul. O Havana Café, onde estávamos há horas, já ia fechar, e o baiano queria seguir na farra após a apresentação da peça Abismo de Rosas, em que atuava ao lado das atrizes Clécia Queiroz e Nadja Turenko. A peça, grande sucesso em Salvador, estava em excursão pelo Projeto Funarte, e Caxias tinha sido contemplada na caravana.
Após a sessão, no Teatro São Carlos, eu já íntimo do elenco e da equipe técnica, levei-os ao Havana Café, ali pertinho. Entre risonhas prosas em puro baianês, petiscos e drinques, a noite pedia mesmo para ser esticada, como sugeriu Wagner. Mas antes de seguir nessa história, preciso contar como entrei nela.
Eu estava na redação do Pioneiro quando o João Tonus, então coordenador do Teatro São Carlos, ligou dizendo que comentara com os baianos da peça sobre mim — um raro conterrâneo nessas plagas —, e o grupo quis me conhecer. Lá fui eu, claro, quando saí do jornal. Eu poucos minutos já parecíamos amigos de infância!
Wagner recém concluíra o curso de Jornalismo na mesma Faculdade de Comunicação que eu cursara por dois anos, antes de me mudar para Caxias. E conhecia todos os meus ex-colegas. Com Clécia e Nadja, a empatia não foi menor, e seguimos a papear e passear pelo Parque Cinquentenário, não sem antes eu ter recebido um monte de cortesias para o espetáculo. Chamei os amigos todos.
O público adorou a peça, uma trama de amor, mistério e morte regada com canções do gaúcho Lupicínio Rodrigues — sim, Wagner também cantava Lupi em cena! E aquela seria a última peça dele na Bahia, antes de ingressar na montagem de A Máquina, com os amigos Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, e ganhar fama.
Agora voltemos ao Havana Café. As meninas estavam cansadas e foram para o antigo Hotel Senador, a poucos passos dali. E eu na missão de encontrar um lugar para ir em Caxias depois da uma da madrugada. Pensei numa certa boate descolada, mas havia um problema: era um lugar “fino”, que não deixava entrar gente de tênis, por exemplo. Foi quando lembrei do Amadeus, o popular Bafão, na Rua Vinte de Setembro.
Wagner, o cenógrafo e o contraregra, todos de jeans e camiseta, de cara adoraram o bailão do Bafão, aquele desaguadoro do melhor e do pior da noite caxiense e que ia até depois do amanhecer. Quando decidi ir embora, Wagner já estava aos beijos com uma caxiense na pista. Tive que interromper o romance para dar a ele as instruções de como chegar a pé ao hotel.
Dia seguinte, antes da última apresentação, fiquei sabendo do fim de noite. Na saída, depois de muitas cervejas, Wagner invertera as instruções que eu tinha dado e caminhara com os outros pela Júlio de Castilhos em direção a Lourdes, e não a São Pelegrino. E àquela hora, nem havia gente na rua a quem perguntar onde ficava o Hotel Senador! Por sorte, acharam um táxi.
Ah, a menina do Bafão estava lá, no teatro, na noite de despedida. Hoje deve estar contando às amigas que já beijou muito o consagrado ator brasileiro ganhador do Globo de Ouro.



