
Sol de verão, calor, um mar azul como o céu. Já bem chego, vou direto para a água. Conservo da infância a associação imediata de mar a mergulho. Mas sempre há um detalhe importante a observar: o fluxo das ondas. Pois se o mar nos acolhe no raso da praia, nem por isso deixa de pulsar em seu ritmo, indo e vindo, ao sabor das marés. E a segurança de nosso corpo na imensidão aquosa vai depender de uma peculiar dança com as ondas.
É regra: quem nunca levou porrada de alguma onda é porque nunca entrou no mar. Tabefes e catiripapos fazem parte de nossa iniciação aos mistérios praieiros. É quando o mar informa logo quem manda, a nos exigir reverência. Sim, queira-se ou não, praia também é um exercício de humildade. E quem tem juízo costuma entrar com cuidado, pedir licença na porta da casa alheia, reconhecer a própria pequenez. Isso em mente, o resto é lidar com as ondas.
Um jogo divertido se instaura no diálogo com elas. Ainda na beirada, a gente vai examinando a onda que vem e decidindo o melhor jeito de recebê-la. Ora a enfrentamos no peito, no caso das menores; ora viramos de lado e pulamos para cima, evitando o baque direto; há o caso de mergulhar por baixo, quando o volume é grande, e o de aproveitar o embalo e seguir de “jacaré”, se deixando levar sem perder a condução.
Nem sempre dá certo, sabemos. Porque, como dito, não mandamos ali. E ocorre de levarmos os famigerados “caldos”. Nesse caso de perdermos a pose e o controle, pela força da corrente, o resultado é sempre imprevisível: de uns goles de água salgada a arranhões na areia e até quedas mais graves. Empenhados na arte de traduzir as ondas, os surfistas conhecem bem o risco e o riscado de fazer da água um solo mágico e efêmero.
Mas é fato: no jogo comum de verão de brincar com as águas, o corpo relaxa e a mente aquieta. Depois de uma longa sessão de enfrentamento das incessantes ondas, sairemos da praia cansados mas também amaciados desde dentro. Dia desses, com o mar um tanto ouriçado, eu cada vez mais furando a coluna de água por baixo, lembrei da sentença de Vinicius de Moraes: “A vida vem em ondas, como o mar”. Taí: quebrar ondas é como o viver.
Esse verso — citado por Nelson Motta na letra da canção Como Uma Onda, de Lulu Santos —, guardei-o para quando fosse — como agora — escrever essa crônica de verão. E fui atrás do poema completo, O Dia da Criação. Uma estrofe diz: “Hoje é sábado, amanhã é domingo / Amanhã não gosta de ver ninguém bem / Hoje é que é o dia do presente / O dia é sábado”.
É isso mesmo, saudoso poetinha! As tais ondas do amanhã: a gente nunca consegue prever direito o tamanho delas. Mas estaremos ali, tentando medir seu impacto, já ensaiando o jeito de corpo para driblá-la ou enfrentá-la. O ideal do mar sereno, sem águas crespas: será que virá?
A gente até por isso anseia, mas no fundo sabe que o que nos treina e revela será sempre a habilidade de lidar com o que a onda/vida nos trouxer. E isso só saberemos mesmo na hora. No eterno presente. Pois que venham, então, as melhores ondas no surf do cotidiano.


