
Um pouco de bastidor: eu já estava a mais da metade de um outro texto, em que comentava o famigerado clima melancólico que dezembro traz, quando a mensagem de uma amiga apontou noutra direção. Na imagem postada, sob uma guirlanda natalina estava escrito: “Dizem que o melhor fica pro final... Bem-vindo, dezembro”. A singeleza positiva da mensagem jogou areia — ou melhor, purpurina — em meu discurso contaminado pela voracidade do mercado nessa época. Travei no texto, julguei-o ranzinza demais, e decidi abandoná-lo.
Sim, em dezembro também reavivamos a esperança, simbolizada em tantas luzes que costumam enfeitar a paisagem comum da rotina. Por que não ser mais otimista? Ainda nos bastidores da crônica, comecei outra, mas fui achando tudo muito clichê, muito piegas. Era pouco sincero exaltar dezembro — logo eu que também reclamo do excesso de estímulos no mês. Como ser apenas neutro sobre ti, ó dezembro? Sem resposta, travei de novo no texto.
Nisso lembrei que precisava resgatar um arquivo de anos atrás, guardado em disco. Achei o dito, mas vi que o mesmo disco também trazia dezenas de antigas crônicas. Por dispersiva curiosidade, abri o arquivo relativo a texto publicado no Pioneiro em 7 de dezembro de 2007, há exatos 18 anos, portanto. O título: Gramática de dezembro. Ali eu apenas brincava com as coisas da estação, arrumando-as de acordo com suas classes gramaticais. E como eu devo terminar essa crônica, reproduzo trechos da antiga, de quando dezembro igualmente já me intrigava e dividia.
“Substantivos: compra, débito, pagamento, crédito, oferta, caixa, presente, fita, fila, pacote, atendente, algodão, isopor, vitrine, trânsito, gente, gente, gente, irritação, buzina, calor, camiseta, bermuda, amigo-oculto, reserva, pizzaria, espera, confraternização, cerveja, alegria, mensagem, vazio, cartão, euforia, depressão, feriadão, festa, quantidade, falta, pinheiro, luz, coração, barriga, mesa, ceia, peru, fruta, vela, família, amor, solidão, lembrança, inventário, promessa, esperança, negação, expectativa, noite, espumante, taça, abraço, beijo, ressaca, perdão, Deus, fim, começo.
Verbos: querer, andar, olhar, perguntar, cansar, comprar, gastar, calcular, telefonar, desistir, somar, oferecer, retribuir, arrumar, cozinhar, preparar, esperar, sentir, chorar, rir, perdoar, embriagar, ferir, esquecer, celebrar, rezar, desejar, sonhar, brindar, dividir, prometer, parar, seguir, ser, ter, dormir, recomeçar.
Adjetivos: feliz, novo, bom, melhor, vermelho, verde, triangular, celeste, colorido, caro, bonito, barato, singelo, iluminado, lindo, dourado, ótimo, cristão, alegre, mau, cheio, péssimo, delicioso, doce, salgado, quente, melhor, gelado.
Advérbios: aqui, bem, lá, mal, talvez, menos, possivelmente, sim, hoje, muito, amanhã, demais, sempre, rapidamente, nunca, lentamente, como?, onde?, ainda, não, adiante, depressa, longe, devagar, perto, generosamente, bastante, certamente, quando?, quando?, quando?
Interjeições: xô!, alô!, olá!, hum!, oba!, grato!, viva!, tomara!, queira Deus!, ufa!.”



