Ninguém entendeu direito ainda o que aconteceu com o humor na televisão aberta. Era um tema obrigatório nas programações de nossa infância, mas raro hoje. Sou da geração que cresceu ao redor das claques dos Trapalhões, de Chico Anysio e de Jô Soares, entre muitos mais. Era a gente a rir do possível e do impossível, sob o efeito libertador que somente o riso promove. Quando foi mesmo que ficamos tão sisudos? Ou será que nosso imprescindível riso apenas mudou de mídia e de formato?
Já li bastante a respeito e vi muitas entrevistas de pessoas ligadas ao assunto. A revolução midiática promovida pela internet não impactou apenas os formatos dos programas e os modos de consumo. Ao abrir espaço para múltiplas manifestações da sociedade, as redes sociais também revelaram quantos temas seriam melindrosos na abordagem tradicional do humor. Já não tem graça nenhuma rir de minorias e de oprimidos. Há que se cuidar dos processos judiciais e dos cancelamentos virtuais. Além disso, os conflitos ideológicos acirrados nos últimos tempos abriram trincheiras difíceis de lidar entre os espectadores. O riso de uns pode ser a ira de outros.
E o Brasil, país de caráter jovial e irreverente, em que o riso e o deboche se amalgamam no célebre jeitinho brasileiro, como é que tem trafegado nessas vias de novas sinalizações? Ora, se temos vocação inata para dar opinião sobre tudo e para tirar sarro de tudo, basta conferir os comentários nas postagens das redes sociais para conferir a quantas anda o escracho nacional. Aliás, suspeito que a graça viciante de redes como o Instagram deva menos às provocações das postagens em si e mais aos comentários.
No circo do vale tudo das postagens, sempre que vejo algo tosco ou estranho demais, já olho os comentários, para confirmar meu espanto e, mais ainda, para rir das avacalhações que certamente encontrarei. Convenhamos, o tal brasileiro cordial tanto sabe ser violento nas agressões como sabe ser criativo e até genial na mordacidade e no cinismo. Não é à toa que, em tempos de internet, o Brasil já é apontado como o país dos memes. Só falta levar a taça pelo humor nos comentários.
Outro dia chorei de rir com essa mídia. Numa postagem, uma influencer de dicas domésticas receitava uma mistura mágica para limpeza. E começava a esfregar a mistura no tampo de uma mesa plástica já desgastada. Parei para olhar. Esperava ver no final a mesa branquíssima, quem sabe até adotar a mistura. O vídeo foi se alongando, a mulher esfregando, e a sujeira velha não saía. Quando ela, por fim, enxaguou a mesa, não vi grandes mudanças. Corri aos comentários. “Ela perdeu o tempo dela, e eu o meu”. “Trocou seis por meia dúzia”. “Agora pode jogar a mesa fora”. “Ela não esfregou os cantos, morri de agonia”. “Querida, melhor usar essa mistura para lavar sua cara de pau”.
Sim, nos comentários das redes, a ironia, o descaramento e a verve hilária do brasileiro gozam de boa saúde. Não tem jeito: se falta humor na televisão, o Brasil vai provocar riso noutra freguesia. Só não pode é deixar de rir.




