
Cobrou-me um leitor: cadê o final da história dos passarinhos? Para quem andou voando, contei aqui, semanas atrás, o desenrolar de um ninho de rolinhas cinzentas a pouca distância da janela do quarto. Dali pude acompanhar a confecção do ninho entre os ramos de uma camélia, a chocagem dos ovinhos e a alimentação dos dois filhotes. Faltou relatar somente a etapa final de todo o processo: a hora de os novos passarinhos baterem asas rumo aos céus.
Desde a eclosão dos ovos até os filhotes estarem bem emplumados, passaram-se uns 15 dias. Eles engordavam e cresciam rapidamente, na boa vida de somente comer e dormir sob a asas do pai e da mãe, que se revezavam no cuidado. Até que se deu o primeiro voo — ou melhor, o primeiro que testemunhei. No ninho, a mãe — ou o pai, vá saber — abria repetidamente as asas e as sacudia. Um dos filhotes fez o mesmo, mas o outro ficou na dele, como se não tivesse entendido nada. E a mãe voou ao chão, imitada pelo filhote mais esperto.
Fiquei emocionado, do outro lado da vidraça. Um voo inaugural de ave! E meu olhar inaugural sobre tal voo! Era a força instintiva da natureza a serviço da vida. O outro filhote seguia andando em círculos, atarantado, no ninho quase plano. Parecia medroso de se atirar no vazio, interpretei. No chão, o mais atrevido bicava o que encontrava, como se já soubesse o que fazer. Não demorou, a mãe retornou ao ninho, e sua cria também. E ambos os filhotes sumiram debaixo das grandes asas.
Na manhã seguinte, pela primeira vez vi os pequenos sozinhos no ninho por um longo tempo. Parecia até um estímulo dos pais ao voo solo. Mais tarde, ninho vazio, flagrei ambos, com mais pai e mãe, todos a andar no chão sob a camélia. Uma animada reunião familiar! Depois os pais voaram para o galho mais baixo da laranjeira vizinha, e os dois filhotes os seguiram. Quis registrar a imagem dos quatro, corri a buscar o celular. Quando voltei, havia somente os filhotes no galho. E ali ficaram, imóveis.
Desisti da foto, fui cuidar da rotina. De noitinha, esperei ver de volta os pequenos no ninho. Nada. Nem no outro dia. Ah, foram embora, ganharam o céu, com ou sem a companhia dos pais... Li na internet que as rolinhas vigiam os filhotes por um tempo fora do ninho. Será que bastaram, como vi, as lições de voo e bicadas no chão? Será que o mais tímido ganhou confiança? Só sei que fiquei algo frustrado por essa novelinha terminar assim, sem um clímax à altura.
Dois dias depois, surpresa: havia uma rolinha adulta no ninho! Seria a mesma mãe? Estariam os filhotes debaixo dela? Não, nada disso, mas outra ninhada – já vi um ovinho de relance. Um amigo garantiu-me que seria a mesma rolinha, cujo ciclo reprodutivo costuma emendar gestações em série. Novos filhotes não tardam a chegar.
Assim, meus dias de ornitólogo de apartamento térreo prosseguem. Mas desta vez não lamentarei o voo abrupto dos filhotes. Passarinhos nasceram para isso. E partem, sem despedida, sem tutela, sem nenhuma pena de quem esteve a espiá-los. E eu que voe mais solto em meus próprios anseios.


