
Prossigo na prosa sobre aspectos transcendentes e religiosos da cultura caxiense, com base nas pesquisas do antropólogo Thales de Azevedo, realizadas em Caxias do Sul a partir de 1955. Embora a cidade tenha sido formada essencialmente por imigrantes italianos católicos, o contato local com outras matrizes culturais abriu espaço para sincretismos e diversas assimilações acerca dos mistérios da fé. A seguir, notas do antropólogo baiano, citando as fontes que consultou.
“Pe. Adelino Baumgartner. Os descendentes de italianos e alemães batizam os filhos, em média, quando aqueles completam 1 mês; é o tempo para a mãe poder comparecer e receber a bênção que a purifica do contato com um ser ainda não regenerado pelo batismo. Algumas mães vêm receber a bênção sozinhas. Mas consideram que não é bom a mãe receber a bênção sem o filho. Os ‘brasileiros’ às vezes trazem a batizar crianças com 8 meses, 1 ano ou menos. As mães também trazem frequentemente as crianças doentes para receberem a bênção do padre: 3 a 4 por dia”.
“O Pe. Zanetini, na igreja Nossa Srª de Lourdes, me disse que os ‘lusos’ são mais propensos a fazer promessas. Uma delas é vestir a criança de Bernardete no dia da festa anual de Nossa Srª; outra é conservar compridos os cabelos das crianças, masculinas ou femininas, até os 7 anos”.
“Pe. Giordani. O espiritismo e a Umbanda progridem aqui, mas não na proporção de outras partes do país; esse progresso chama atenção exatamente pelo contraste com a religião da maioria”.
“Teodoro Rodrigues de Abreu. Diz que sabe de 4 batuques na cidade. (...) A gente do batuque cura também com aquelas rezas, com banhos para ‘descarregar o corpo’, purificam as casas com cerveja. Fazem garrafadas. Aquela gente, por ocasião das doenças, recorre primeiro a tais meios e só depois ao médico. Há também os espíritas, com médiuns e sessões de invocações de espíritos. Os protestantes têm atuação na zona (pentecostais adventistas, metodistas), mas não têm progredido”.
“Contou-me Dª Anita Denicol que há uns 20 anos vivia em Caxias uma preta velha, bem preta, muito bem tratada e vestida, a velha Constança, que era ‘sortista’ e benzedeira. Até da colônia recebia chamados para benzer estrebarias, curar doenças. Ela dizia que certas doenças eram ‘coisa-feita’”.
“Germano e Deonice. [Em Conceição da Linha Feijó] Benze-se cobreiro, mordida de aranha, erisipela, ciática; confirmam que um padre (Pe. Teodoro) curou-se de ciática com benzedeira. Deonice curou as feridas que tinha numa perna, causadas por mordida de aranha, com um curandeiro alemão em Caxias; não pagou nada”.
“Dona Ester Troian. As pessoas que têm dores de cabeça vão a uma mulher para ‘tirar o sol’: a mulher põe um pano sobre a cabeça do paciente e por cima um copo com água ou uma garrafa branca com água e rezam umas orações; a água ferve, porque o sol sai da cabeça e a dor de cabeça cede”.
“Dona Anita Denicol me disse que se reza também para tirar a lua, porque, se a lua incide na cabeça durante o sono, causa dor de cabeça”.





