
Oh, Mérica, Mérica! Na onda dos 150 anos da chegada dos primeiros italianos à Serra gaúcha, vale lembrar que a sonhada América desses imigrantes foi assim batizada em honra a um antigo patrício, o cartógrafo e navegador Américo Vespúcio. Natural de Florença, Vespúcio foi quem defendeu que as terras já visitadas por Colombo e Cabral não eram uma parte da Ásia, mas um novo continente. De certo modo, tornou-se o italiano que inventou a América.
Em 1501, a bordo de uma expedição portuguesa que percorreu a costa brasileira para mapeamento das novas terras, Américo Vespúcio registrava atentamente o que via. No dia 1º de novembro, chegaram às águas mansas de uma enorme baía, logo batizada, conforme a data na forte tradição católica, de Baía de Todos os Santos. Repare: o homem que daria nome à América também estava na nomeação do que seria a Bahia!
E mais: ao chegarem a outra baía, mais ao sul, justamente no primeiro dia do ano de 1502, e pensando que tais águas provinham da foz de algum grande rio, batizaram o lugar como Rio de Janeiro. E o Vespúcio ali, de testemunha!
Voltando à Bahia, a descrição do cartógrafo sobre o relevo nas bordas da Baía de Todos os Santos, em que se destacavam altos morros escarpados — ideais para a defesa —, foi usada anos depois pelo governo português na escolha do local onde seria erguida a primeira capital da colônia, Salvador.
Por seu processo histórico e cultural, a Bahia hoje gosta de cantar-se como terra de “todos os santos, encantos e axés”. Sim, aos santos todos do catolicismo se somaram os orixás africanos e outras versões da divindade, originárias ou não. E tais misturas e sincretismos seriam comuns ao Brasil inteiro, esse país forjado na miscigenação e na diversidade cultural.
E voltando agora à Mérica dos imigrantes, Caxias do Sul cedo tornou-se a colônia mais próspera no contexto gaúcho da imigração italiana. E assim como à Salvador dos tempos da dominação portuguesa, acorreram à Pérola das Colônias, em sua formação, múltiplos fluxos culturais. Já em 1955, foi de lá de Salvador que partiu o antropólogo baiano Thales de Azevedo para mapear a cultura única que brotava por aqui, entre as araucárias.
Como já feito em outra crônica, busco notas dos cadernos de pesquisa de Azevedo sobre a Caxias da época, agora enfocando o tema religioso — no mote deste Dia de Todos os Santos. Anotou ele, em 13 de janeiro de 1955:
“Fui à missa na capela de São Vicente, no Burgo. Estavam presentes umas 200 pessoas, metade das quais era de cor. (...) O padre Zanetini, ao Evangelho, falou de modo muito singelo, recomendando 1) trazerem as crianças para batizar até os 8, 10 ou 12 dias de nascidas, porque, dizia, às vezes, morrem sem batismo; 2) não recorrerem, na doença, às benzedeiras; 3) não consultarem as sortistas, que adivinham a sorte pelas linhas da mão. No fim da missa, disse-me da necessidade desses avisos por causa das superstições do povo da zona, gente toda, brancos descendentes de imigrantes e morenos”.
Ih, tem muito mais a contar. Então, essa prosa continua.





