
E tem como não falar de Vale Tudo? A novela das nove se encaminha para sua última semana de exibição, impondo nas mídias e nas bocas a famosa questão: quem matou Odete Roitman? Em se tratando do remake desta que foi considerada a mais bem construída novela, as comparações com a original, de 1988, foram inevitáveis desde a estreia dessa de 2025. Entre o ódio dos detratores e a defesa apaixonada de outros, a novela foi ganhando as pautas, a ponto de se tornar, em sua reta final, um dos temas mais comentados do país.
Ano passado, logo que se anunciou a recriação de Vale Tudo, escrevi aqui a crônica O Perigoso Culto a Ogros e Megeras. No subtítulo, sintetizei o teor do texto: “A identificação com o monstruoso vazou da ficção para a realidade, e muita gente boa agora louva quem exalta o pior do humano”. A partir do retorno de Odete Roitman, fiz ali uma reflexão sobre a fragilidade moral das últimas décadas, a coincidir com a preferência do público por vilões e malvados, em vez de por heróis exemplares. E a coincidir, também, com a tendência de tantos eleitores a optarem por políticos medonhos.
Agora, é fato que a moderna Odete, que Débora Bloch interpretou com brilho próprio, foi até mais amada do que a vivida por Beatriz Segall. Embora a maldade da atual tenha ultrapassado em muito a da primeira versão – com a nova Odete virando uma matadora em série —, as camadas de irônica sensatez e de feminismo — sinal dos tempos — a perdoaram junto ao público. Pesquisa recente do Datafolha apontou que somente 4% dos entrevistados desejavam a morte da personagem, enquanto 47% a queriam pobre como castigo. Seria essa a cara do Brasil atual, como sugere a canção de abertura da novela?
Ao adaptar para os dias de hoje a trama criada por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, Manuela Dias teve muitos acertos, como as protagonistas negras. Mas também errou, ao diluir a tese original sobre o valor da honestidade num país corrupto em todas as instâncias. Baluarte da ética na trama, Raquel Acioli foi se apagando no terço final do remake. Virou mais uma lutadora sem graça ante o fogo e o fulgor de Odete. Ou será que a culpa foi nossa, o público, já de má vontade com os mocinhos?
No livro O Circo Eletrônico, de Daniel Filho, produtor da Vale Tudo original, ele lembra que o grupo de discussões que a Globo promove sempre que uma novela estreia — formado por pessoas variadas da sociedade — sugeriu que Raquel não fosse sempre correta e boa. Mas os autores insistiram no perfil pensado. Diante de Maria de Fátima, Odete e Marco Aurélio, Raquel tinha que ser uma inabalável rocha moral.
Pois bem: faltou ao remake mais atenção a Raquel. Acostumado a escrever sobre a elite e suas hipocrisias, Gilberto Braga foi quem teve a ideia de convidar Aguinaldo Silva a entrar no time de Vale Tudo em 1988, por este saber compor personagens suburbanos e pobres. E o próprio Braga sempre dizia que Raquel era muito mais de Aguinaldo do que dele. Se Raquel fosse fraca, o vale tudo dos imorais teria vencido. Ou já venceu?




