
Como uma novela, sigo no hábito de espiar diariamente os eventos em torno de um ninho de rolinhas cinzentas no jardim dos fundos. Ela e ele, no revezamento do choco, e sem que eu distinga fêmea e macho, também espiam com atenção minha cara na vidraça. Procuro ser discreto. Longe de mim criar tensão para as avezinhas nessa fase que tanto me fascina exatamente por materializar o milagre da vida. É com respeito e encantamento, portanto, que as observo.
Contando o tempo desde que eu dera por fé do ninho, e com mais a informação do Google de que o choco dessa espécie dura em torno de duas semanas, achei que já era hora de os ovinhos terem eclodido. Mas seguia vendo somente a rolinha imóvel sobre o ninho, sem sinal algum de filhotes. Cheguei a pensar que poderia haver algum atraso no processo por conta da onda de frio que a primavera andou a espalhar.
Mas não. Os danadinhos já tinham nascido, e apenas seguiam ocultos sob o corpo e as asas dos pais, aquecidos e protegidos. Descobri isso quando flagrei um momento de alimentação. Dois filhotes, já com penugem avançada, abriam os bicos diante da mãe — ou do pai, nunca vou saber. O pássaro cuidador, então, conectou o próprio bico no bico de um dos filhotes e começou a transferir, em espasmos do corpo inteiro, a comida de dentro de si para o papo do filho.
Impressionante! Era uma amamentação sem seios, a comida saindo pastosa e quente de um papo adulto e cheio para um papo frágil e faminto. Eu achava que todo passarinho dava de comer aos filhotes trazendo insetos ou minhocas no bico. Foi o Google quem me contou dessa peculiaridade das rolinhas, de regurgitarem parte do que comeram diretamente para a papo das crias. E a transferência parecia se dar pela pressão do perfeito acoplamento entre os bicos: o vácuo de um bucho vazio puxando o que pudesse vir de um bucho cheio.
Passada a hora da nutrição, os filhotes voltaram a se esconder sob as asas do guardião. Deixei-os em paz, fechando a cortina da janela indiscreta. Mas fiquei com o impacto da cena. Não pude evitar tecer relações com os humanos. A vida, na defesa de si mesma, também nos dota do poderoso instinto de cuidar dos outros – e, mais ainda, incondicionalmente, das próprias crias.
E lembrei de uma cena muito repetida em minha infância, no almoço ou no jantar. Quando, por fome ou gula, eu devorava toda minha porção de carne, por exemplo, e seguia comendo apenas os acompanhamentos, feijão com arroz que fosse, sempre via cair em meu prato novo pedaço de carne, atirado por minha mãe de longe, do próprio prato. Com cada filho era assim: ela preferia abrir mão de sua porção a vê-los comendo sem o principal.
Eu recebia a porção voadora com gratidão. Era uma forma de amor, era um presente que me fazia especial. No narcisismo típico da idade, nem percebia que ao ganhar aquela carne extra deixava minha mãe a comer “puro”, como se dizia então. Sinto agora uma pontinha de culpa.
E isso é para ilustrar como o ato de espiar um simples ninho de rolinhas cinzentas pode mexer fundo com a gente.




