
Acabou-se Vale Tudo, desligo a tevê no horário nobre — e nos outros horários também. Agora é fazer como Belchior, viver a alucinação de suportar o dia a dia e ter meu delírio na experiência com coisas reais. Ou não: não sou tão escorpiano assim para afastar tão bruscamente o cálice em que bebo a necessária dose diária de fantasia e catarse. Só quero mesmo me perder menos nas distrações orquestradas pelo deus mercado. E até já engatei noutra novela, esta real, como somente pode ser real uma manifestação da natureza.
Essa novela não ficcional — ou seria um reality show? — começou semana passada, quando um continuado ruflar de asas vindo do jardim térreo me chamou a atenção. Deixei o computador para espiar, era um casal de rolinhas a fazer um ninho num galho da camélia rosa, a pouco mais de um metro da minha janela. Ela — supus que fosse a fêmea — se acomodava entre gravetinhos já dispostos em concha, enquanto ele trazia no bico outros pequenos ramos. Espantaram-se comigo, me afastei, mas segui olhando o casal por uma fresta da cortina. Como perder tal espetáculo de amor primaveril?
Desde então, tenho discretamente observado o avançar do natural processo de geração da vida. Ninho pronto, uma das aves ficou ali pousada, quase imóvel. Fui ao Google pesquisar sobre as rolinhas cinzentas e seus ninhos. Soube que ambos, macho e fêmea, se revezam no choco. Achei justíssimo. Em certa tarde, flagrei a hora da troca de turno, com um passarinho saindo brevemente do ninho para o outro ali se deitar. Desse jeito, os dois ovinhos brancos ficam sempre providos do calor que logo fará eclodir os filhotes.
Li também que essa fase dura menos de duas semanas. Pelas minhas contas, não tardará a se fazer ouvir o arrulhar de duas novas rolinhas cinzentas. Consta que também é rápido o tempo de dependência da alimentação vinda dos pais, antes de os filhotes deixarem o ninho: coisa de duas semanas. Pois bem: minha novela real à janela está nessa espera pela eclosão dos ovos. Parece que nada acontece. Ave imóvel no choco, vidas em gestação. Fosse uma novela, haveria uma evasão do público, pela falta de ação mais intensa. Mas as coisas reais trazem seu próprio tempo.
Noites atrás, fui acordado por trovões e pelo rugir tempestuoso de ventos fortes. Pensei logo no ninho, levantei para conferir. A camélia se sacudia inteira sob o temporal. No escuro, não enxerguei a rolinha. Mas, de manhã, passada a tormenta, ela seguia lá, de onde não deve ter se afastado.
Ah, os tantos perigos da vida! Lembro de certa feita, na infância, quando descobri um ninho de canários no mato. Ia todo dia espiar — a penugem dos filhotes virando penas, os pais na nutrição e na vigilância. Até que um dia deparei com uma cobra coral enrolada no ninho. E nada de passarinhos. Saí correndo, apavorado.
Felizmente, nesse quintal urbano de agora, ilha cercada de asfalto, acho impossível haver cobras ou outros predadores. Só há uma indispensável espera. E meu rosto ansioso a espiar tudo do lado de cá da vidraça, eu querendo apressar o correr da vida.



