
Eu picava cebolas na cozinha quando ouvi um som repetido vindo da área de serviço. Não havia dúvida: era o cantar de um grilo. Caminhei até lá, e o ruído dos meus passos logo silenciou o bicho. Onde estaria escondido o danado? Silêncio. Voltei ao que fazia e fiquei a imaginar como ele entrara no apartamento, até esquecê-lo completamente.
Noutra noite, a cena se repetiu. Alguns cricris na área, cessados assim que fiz barulho da cozinha mesmo. Outra vez fui à caça do cantador que pudesse atrapalhar meu sono na madrugada. Nascido no interior, com mato por perto, eu lembrava bem do que era um estridente som de grilo dentro do quarto a altas horas. Mas olhei até debaixo da máquina de lavar, e nem pista dele.
Dias depois, entrando pelado no box para um banho, vi sair o bendito grilo de debaixo das havaianas que ali deixo. Eu paralisei. E contive o ímpeto de pisar forte em cima do intruso. Um jorro de compaixão me inundou. Como matar um bichinho que canta por amor? Eu já sabia que somente os machos cantam, para atrair as fêmeas. E som de grilos cantando soa a pura poesia em paisagens campestres.
Um diabinho sussurrou em meu ouvido que ali não era o campo e que aquele inseto ia certamente me incomodar nalguma noite. Morte a ele, então. Noutro ouvido, um anjinho argumentou que seria uma crueldade extrema matar um ser indefeso e que ainda por cima canta por amor. Eu tinha que ser muito sem coração para fazer isso. E o frio batendo, eu pelado, inverno no entorno.
Eis que venceu o amor! Me enrolei na toalha, fui buscar a vassoura e a pá e, com cuidado, fisguei o grilo e o atirei para fora pelo basculante. Que ele fosse feliz entre muitas grilas jardim adiante. Mas fiquei com uma questão, já debaixo do chuveiro. E se a fêmea, muda, já estivesse por ali mesmo, dentro de casa? Eu teria sido um terrível separador de um casal feliz... Ai, ai, tinha cabimento ficar eu grilado com isso?
Eu expulsara o grilo real sem saber que ele entraria dentro de minha cabeça! Para me livrar da culpa, fui pesquisar depois sobre o grilo. E que beleza: seu canto vem da fricção de uma asa, meio serrilhada, com a outra. É feito um arco na corda de um violino. Leio que o som é mais forte para atrair a parceira e mais suave quando esta já estiver por perto. Quanta delicadeza! Comparei o grilo a um seresteiro de antigamente, que primeiro cantava alto para acordar a amada, e depois mais baixinho, quando ela já estivesse à janela.
Leio também que o canto de um grilo varia em sonoridade de acordo com a época do ano e, mais ainda, com a temperatura. Um antigo almanaque ensinava até como medir a temperatura pelo cantar de um grilo. Deve-se contar a quantidade de cricris emitidos em 25 segundos, dividir o resultado por três, e a seguir adicionar quatro. Chega-se, assim, à temperatura em graus Celsius, mas isso só vale em climas amenos. Os grilos evitam cantar no frio.
Li também que o pousar de um grilo é sinal de sorte na China. Oh, céus, e eu joguei a sorte pela janela! Outro grilo para lidar aqui dentro da minha cachola...






