
A brincadeira era escolher uma canção dentro da qual se gostaria de morar para sempre. Sim, morar. O universo sugerido na canção se tornaria uma realidade imutável e eterna. Captei bem aquela proposta abstrata, porque percebo o quanto certas obras artísticas, como filmes e músicas, nos tocam tão fundamente que se tornam projeções de nossos mais secretos anseios — e mesmo de nossa essência. O problema era apontar uma única canção.
Mas entrei na brincadeira. Quis logo escolher uma canção alegre, positiva, dessas que irradiam luz e esperança. Se a coisa é para sempre, que tenha esse sabor de fim de conto de fadas, de paraíso bíblico ou de utopia. Imaginei, então, viver dentro de Estrada do Sol, a radiosa parceria entre Tom Jobim e Dolores Duran: “É de manhã / Vem o Sol / Mas os pingos da chuva / Que ontem caiu / Ainda estão a brilhar / Ainda estão a dançar / Ao vento alegre / Que me traz essa canção”.
Que beleza de atmosfera! E como não tem muita graça ser feliz sozinho, a parceria está ali: “Quero que você / Me dê a mão / Vamos sair por aí / Sem pensar / No que foi que sonhei / Que chorei, que sofri / Pois a nossa manhã / Já me fez esquecer”. E a jornada final: “Me dê a mão / Vamos sair pra ver o Sol”. Quem não quer esse futuro perfeito, tecido em palavras e música tão lindas?
Ah, mas o ser humano à perfeição seria destinado se não fosse... humano. Depois de séculos sob matinais raios prismáticos de Sol, suspeito que algo mais nebuloso em mim ia querer aflorar. Tipo uma saudade insidiosa de alguma manhã nevoenta, de alguma madrugada silenciosa e vazia, de alguma ânsia que contaminasse o coração com incompletudes. Nem que fosse para sentir a melancolia do que me falta, eu fatalmente seria tomado pelo tédio diante da próxima e luminosa manhã.
Aí as notas de alguma canção noturna viriam me entorpecer. E eu ia gostar do próprio mistério de não saber por que secretamente desejaria renunciar à plenitude para viver o livre e tormentoso descarrilhamento das emoções. Mas calma, coração, sem essa de ser tão luciferino! Lembre-se: nem todo mundo tem a fúria cósmica de um Rimbaud.
Nem sempre a poesia nos salva, como nas baladas que falem, feito Cazuza, de lágrimas deixadas num banheiro sujo. Tampouco sempre vem a redenção após a voracidade de uma paixão insana, como aquela cantada pela louca e rouca Ro Ro, que precisasse caminhar às três da manhã na loucura-loucura de amar demais. Morar numa canção desse matiz? Não: até Rimbaud foi para a África em busca de paz.
E chegou a hora de dizer em que canção eu desejaria morar. Numa ensolarada, mas nem tanto. Quem sabe nalguma de tanto querer, mas sem fissura. Casa no Campo! Taí, é essa baladona hippie de Tavito e Zé Rodrix, na voz da Elis: “Eu quero uma casa no campo / Onde eu possa ficar do tamanho da paz / E tenha somente a certeza / Dos limites do corpo e nada mais”.
É isso: um desejar atento aos limites. Entre carneiros e cabras pastando no jardim, entre amigos, livros e discos, nessa casa no campo eu ia querer viver eternamente, plantando e colhendo paz.


