
Em certo outono, passeando pela região da Serra da Mantiqueira, na divisa entre os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, fui surpreendido pela presença de araucárias na paisagem. Nunca imaginara que esse espetacular pinheiro tão identificado com o Sul pudesse vingar em tais latitudes sudestinas. Mas sim, a árvore nativa do ecossistema subtropical ainda viceja mais acima por conta do clima de altitude. E ali estavam as araucárias mais ao Norte no hoje ameaçado cinturão verde iniciado no Rio Grande do Sul.
Logo no primeiro dia de trilhas, ao deparar com pinhões no chão, corri a juntá-los. Todo exibido por já conhecê-los da Serra gaúcha, fiz questão de acender a lareira na pousada, à noite, somente para apresentar os pinhões assados aos companheiros de viagem. Gostaram, mas não do jeito entusiasmado que eu esperava. De pronto entendi: não era apenas o gosto do pinhão que contava. Era toda uma história sobre ele. Faltava aos outros baianos a contrapartida cultural em torno do pinheiro, que eu já conhecia bem.
Faltava, por exemplo, o deslumbramento de uma sapecada de pinhões no campo, debaixo dos próprios pinheiros, usando os galhos secos como a lenha de rápida queima, que assa os frutos sem torrá-los. Faltava saber da importância desse ritual alimentício de origem indígena nos primeiros tempos dos imigrantes italianos na Serra gaúcha, quando tudo era adaptação à nova terra.
E, para além da beleza exótica e até mística das araucárias, faltava informação acerca da onipresença da madeira delas na formação social regional. A araucária deu casa, deu berço, deu cama e deu mesa. Ou seja, não se pode falar da história e da cultura do Brasil mais austral sem destaque à arvore primitiva que a natureza por bem achou de ali criar. Assim, um pinhão comido com conhecimento de causa tem outro gosto.
Falando em beleza mística, noutra feita testemunhei uma epifania de uma amiga nordestina. Era a primeira vez que ela vinha ao Sul, e fui buscá-la no aeroporto de Caxias. Assim que ela viu de perto uma araucária na paisagem, sentiu lágrimas escorrerem. Ela mesma não conseguia explicar. Era lindo demais, altivo demais, forte demais o famoso pinheiro daqui. E como se não bastasse a imponência, ainda havia uma graça única na galharia que se abre na horizontal, qual guarda-chuva, ou taça. Ou divino candelabro, como se queira.
Entendi o êxtase da amiga. Mesmo após décadas nas altitudes sulistas, ainda me curvo à grandeza generosa de toda araucária. Passar debaixo delas sempre me remete à entrada num templo, e isso pressupõe respeito, silêncio, gratidão. Hoje não quero lamentar pelo que foi feito do quase infinito campo verde do pinheiral de outrora. Quero é lembrar do obrigatório zelo que devemos ter para com essa bênção da natureza.
E me cabe confessar: dos monumentos que Caxias do Sul exibe em sua praça central, símbolos de sua trajetória cultural, o que fundo me toca nem é visto como monumento — é aquela linda araucária bem em frente à catedral. Ela, sim, é o sagrado coração ancestral da cidade.

