
Perdido em mil pensamentos, disperso entre tantas ideias para esta crônica, o tempo passando, a insatisfação bloqueando o movimento dos dedos no teclado, tive que ceder ao mais insistente dos temas: a entrada de Urano em Gêmeos nesta segunda-feira. Então, ó mente inquieta e indomável, contenha-se e concentre-se. Comecemos pelo que é mais universal, já que, no mais imediato, imperam o caos e a fragmentação.
Consideremos o céu como motivo. Hum, isso soa a redundância — e aqui a danada da mente elétrica já se insinua em derivações. Tudo bem, vale ceder um tantinho à curiosidade. Considerar o céu soa redundante porque a palavra considerar, em sua etimologia, tem a ver com... observar atentamente as estrelas! “Sidus” ou “sideris”, em latim, significava astro ou estrela – por isso espaço sideral designa o campo celeste das estrelas. “Considerare” dizia de um olhar cuidadoso ao céu em busca de sinais para uma correta orientação. Com o uso, na linguagem, considerar virou um exame amplo dos diversos aspectos de alguma questão.
De volta ao espaço sideral, o planeta Urano ingressará na faixa de céu que chamamos de Gêmeos no próximo dia 7. Falando em planeta... Ah, mente, lá vens tu outra vez querendo abrir o foco da história? Que saco! Só mais essa, ok? A palavra planeta tem origem grega, com o significado de errante ou vagabundo. Esse termo foi criado para falar dos astros que, diferentemente das estrelas sempre fixas no desenho das constelações, vão se deslocando no céu, como se vagando no espaço. Assim, planeta era uma “estrela errante”, embora se movesse em ciclos de tempo ordenados.
E repetindo um ciclo de 84 anos, Urano ingressa em Gêmeos, por onde vai girar pelos próximos sete anos. Segundo a tradição astrológica, podemos pensar em Urano como indicador de inovações, surpresas e excentricidades, atuando no signo das comunicações, dos movimentos e das conexões. My God! Será possível um estado de coisas ainda mais elétrico e radical — e, por isso mesmo, caótico e polarizado — do que este de agora, promovido pela onipresença do virtual e pelo vale tudo das redes sociais? Será possível ainda mais dissociações cognitivas e mentiras travestidas em liberdade de expressão?
Em se tratando de Urano — planeta cuja descoberta por meios tecnológicos alterou completamente a visão do sistema solar —, podemos pensar em tudo, inclusive numa virada de rumo que até resgate o puro fundamento das interações sociais. Sim, em meio a um turbilhão de artificialismos e invenções, liberdade mesmo pode ser dizer não ao que é imposto e redescobrir o óbvio. E o que é óbvio? O natural, é claro.
Considerando Urano, astro que leva o nome do primordial deus do céu estrelado, não podemos ignorar sua metade mítica, Gaia, a mãe terra. Na melhor das aspirações, podemos redescobrir o corpo e a natureza. E ressignificar o simples, o analógico, o tempo presente. Já refém de ansiedades e dispersões, o geminiano aqui está em luta séria pelo uso equilibrado do aparato virtual. E quem leu esse texto dispersivo já sentiu o tom da peleia.




