
Se não tivesse riscado o céu do Brasil feito um cometa e partido precocemente aos 44 anos, Raul Seixas completaria 80 anos neste 28 de junho. Outros artistas da mesma geração seguem na ativa, lotando estádios em grandes shows, e soa lamentável que o “maluco beleza” não possa estar também a colher os frutos de liberdade cujas sementes ousou plantar em tempos mais escuros. Mas, pensando bem, chegar saudável aos 80 e realizar concertos confortáveis não parece coerente com quem foi Raul Seixas. Talvez seu caminho errático, de preferir ser mosca na sopa dos acomodados, é que sustente um fascínio que não para de crescer entre as novas gerações.
Entre o homem e o mito, que mistérios tinha esse Raulzito? Quantas facetas cabiam no baiano que se tornou um original guia do rock nacional? Familiares e amigos o descrevem como tímido e sensível. No palco, era um endiabrado arauto de novos mundos. Em certa canção se dizia um canceriano sem lar, frágil em seus tomentos interiores; noutra, sem disfarces, se assumia egoísta; noutra, já era uma metamorfose ambulante, pronto a desdizer o que dissera antes.
Em 1975, no auge dos primeiros sucessos e da fama, Raul confessou à amiga jornalista Ana Maria Bahiana que, até a adolescência, a música nunca fora para ele uma expressão artística principal. Tudo mudou, é claro, quando surgiu o rock and roll, em meados dos anos 1950. E ele se encontrou: “Porque antes a garotada não era garotada, seguia o padrão de adulto, aquela imitação do homenzinho, sem identidade”. E a rebeldia juvenil o arrebatou: “Era minha porta de saída, era minha vez de falar, de subir num banquinho e dizer eu estou aqui”. O resto é história.
Mas, se a veia musical não era evidente, o que o movia como impulso expressivo identitário de seu ascendente em Leão? Ah, Raul queria ser escritor: “Feito Jorge Amado, viver de literatura, ficar assim em casa escrevendo, a camisa arregaçada, o cigarro com uma cinza enorme”. A literatura tinha tudo a ver com a alma inquieta e filosófica do menino: “O que me preocupava mesmo eram os problemas da vida e da morte, o problema do homem, de onde vim, pra onde vou, o que é que eu estou fazendo aqui”.
O pai, um engenheiro dono de muitos livros, cedo introduziu o filho mais velho no universo dos clássicos, entre títulos de astronomia e sobre o universo. “Meu pai sempre gostou de mistérios, de coisas estranhas, e me meteu nesse mundo estranho, de tudo que é inexplicável na face da Terra, debaixo do mar, no céu...”. E Raulzito passou a escrever livros artesanais, que vendia ao irmão caçula. Em todas as histórias, havia sempre um cientista louco: “Era uma parte de mim, o cara imaginativo, buscando as respostas, o eu fantástico, viajando fora da lógica, numa maquinazinha que cabia um só passageiro...”.
Cometa Raul, fico aqui a imaginar que baita conto ou romance não daria o mote de canções como S.O.S.: “Ô, ô, seu moço do disco voador / Me leve com você / Pra onde você for”. E saiba, Raulzito, está osso querer paz nesse planetinha por enquanto azul. Tem vaga aí na nave?


