Ia quase pegando no sono quando fitei, entre um olho aberto e outro fechado, uma bendita frase do conto O Dar das Pedras Brilhantes, que fecha Estas Estórias, livro póstumo de João Guimarães Rosa. Nesse limbo de quase-sono pensei: quero pegar essa frase-ricochete para escrever a crônica da semana.
Depois de atravessar madrugada adentro visitando cenas que talvez pudessem ter sido filmadas por Fellini, o pai das imagens oníricas, já despido da metamorfose — digna de quem habita sonhos estranhos e intranquilos —, acordei com a mesma cara amassada de sempre, querendo só mais umas horas de sono.
Fiz o que era digno naquela altura da manhã emburrada, de céu chapado de cinza, que teimava em esconder qualquer raio de sol no horizonte profundo. Dignei-me a espreguiçar o corpo enferrujado, com uns quilos a mais do que o ideal e, ao lavar o rosto, sacudindo a poeira, foi-se a ideia ralo abaixo.
Só consigo imaginar a cara do Rosa gargalhando em si, não por conta da minha pífia memória. Rosa rir-se-ia a ponto de lavar a alma, porque não fui capaz de segurar a frase indomável nem que fosse pelo rabo. Tivesse eu que montar num cavalo xucro, o tombo não seria só cômico, seria urgente, direto para o bloco cirúrgico, implorando aos deuses e às deusas para que eu não ficasse paraplégico.
É inútil acessar memórias. De que servem o cheiro da página envelhecida, as imagens que o texto suscita, a aridez do enredo, as sutilezas ora líricas, ora ásperas? Faço o que com isso se a frase se foi? Enquanto Morfeu me desligava daqui, religando-me no sono profundo, a frase foi-se embora como peixe em alto-mar.
Odeio pescar. Odeio ainda mais desde ontem, quando a frase-ricochete riscou como rabo de foguete mar adentro. Do mar só quero o sossego de uma mirada no horizonte a perder de vista no entardecer de um eterno verão, ao infinito e além.
Penso nisso enquanto a lembrança daquela frase ainda me escapa. E agora entendo por que Rosa ri sozinho toda vez que abro seus livros e as frases ricocheteiam, tentando escapar. Essa não foi a primeira, nem será a última vez em que as frases do Rosa me escapam.
Nil, a poeta dos olhos da cor de outono, escreveu que a “poesia escapa”. Rosa, dizem os catedráticos, por escrever contos e romances, era prosador. Rosa ri-se sempre disso. E pouco importa em que gaveta acondicionem sua obra. É poética e sinuosa por natureza, por isso escapa ao enquadramento e às caixas.
Rosa é um denso e infinito manancial estético, é bálsamo, é o êxtase da linguagem, é o único espaço-tempo onde as rosas poetizam, exalando a terna e tenra brisa do mar, mesmo léguas distante do oceano.





