Dia desses, entrando no supermercado, fui direto à seção da padaria porque sabia que estava na hora da fornada de croissants. Para quem nunca viu ou arriscou provar, croissant é um pãozinho leve em formato de meia-lua ou de chifre curvado (a depender do gosto do freguês), com uma superfície dourada e levemente amanteigada, feito de centenas de camadas finas de massa folhada.
Enfim, investido de paciência, curtindo uma playlist aleatória de música underground dos anos 1990, encarei a fila. Quando faltava uma pessoa à minha frente, retirei os fones do ouvido. Em segundos, fui arrancado de um estado meditativo para uma atmosfera ditatorial, no bom português “manda quem pode, obedece quem tem juízo.”
— Olha aqui, eu quero 10 cacetinhos, mas quero dos mais queimadinhos, viu! Não, não, esse aí tá pálido, não tá vendo?! Não tenta me empurrar esses pães molengas. Esses aqui ó, esses, sim, estão bem como eu gosto, bem queimadinhos.
Quando chegou a minha vez, pedi desculpas à atendente pelo comportamento da minha conterrânea. A cena expõe duas faces da imigração, histórias similares separadas por um balcão de padaria, como se fosse um muro intransponível, erguido para delimitar conquistadores de conquistados.
— Nem meus filhos falam assim comigo... — desabafou a atenciosa atendente.
Saí dali com cara de tacho. De súbito, pensei: “que comportamento infantil dessa senhora.”
Voltando para a redação, sem conseguir me desligar da cena, resolvi pesquisar a etimologia da palavra infantil, que geralmente usamos para carimbar comportamentos dignos de guris e gurias, mesmo quando protagonizados por políticos à beira de um ataque de nervos, que adoram resolver seus dilemas com tiro, bomba e explosão.
Descobri que a palavra infantil vem do latim infantilis, derivada de infans (criança), que por sua vez significa literalmente “aquele que não fala”. Ou melhor, usando uma forma mais elaborada, na origem latina, o infans era o indivíduo que ainda não havia desenvolvido a habilidade da fala articulada.
Bingo! Então, “fala articulada” é o muro que separa petizes de adultos. Quem atravessou o jardim de infância já deveria ter desenvolvido a habilidade de avaliar se determinada articulação verbal é oportuna ou necessária antes de emitir o som. Aliás, sons que podem ferir como uma palavra maldita ou até matar, quando a ordem é para o exército avançar.
Por vezes, vejo a história da civilização por meio do enredo de O Dono da Bola, da Ruth Rocha. Um famoso conto “infantil” cuja moral muito adulto ainda não entendeu. A birra, meus caros, atravessa gerações e parece ter estendido o período da infância.




