Viram o preço da batata? Como dizia minha avó: “estão custando os olhos da cara!” Pô, o cara não pode mais nem salgar a língua com uma porção de fritas, delicioso petisco popular que sempre cai bem numa mesa de bar. O tubérculo, pasmem, lidera a alta do que vem da terra com mais de 100% de janeiro até agora.
Depois dessa, tirem do cardápio pratos como a Batata Dauphinoise (gratinado francês coberto de queijo gruyère), o Purê Robuchon (extremamente liso e aveludado), ou ainda o Mille-feuille (popularmente conhecido como mil-folhas), nada mais de Batata Rösti (versão suíça com parmesão e trufas), tampouco o simples e elegante nhoque de batata ao molho de gorgonzola e nozes.
Santa ironia, Batman. Os poucos abençoados que podem se satisfazer à mesa com iguarias como essas não precisam se dar ao luxo de escolher ingredientes por causa do seu preço — por mais simples que sejam, como são as batatas. Dos poucos gigantes da indústria que vi fazer isso, um deles era o seu Raul Randon.
Certa feita o vi num corredor de uma grande rede de supermercados. Ele não desfilava com um carrinho. Levava consigo um cestinho e só escolhia os produtos depois de ler as descrições das embalagens e de comparar os preços dos itens. Vi o seu Raul, inclusive, colocar no cestinho um pacote de queijo ralado, de sua marca, a RAR. Não sem antes, pasmem, dar uma olhada de canto de olho no preço estampado na prateleira.
Saindo de cena o seu Raul, que Deus o tenha, puxo uma cadeira para outra lenda, dessa vez literária. Machado de Assis é quase sempre lembrado por dois excertos. O mais famoso deles extraído de Dom Casmurro (1899), em que Bento jura de pé junto que Capitu o traiu com seu melhor amigo. E o segundo, em Quincas Borba (1891), no qual o protagonista, ao explicar a teoria do Humanitismo (doutrina filosófica docemente satírica), vaticina: “ao vencedor, as batatas!”
Só que não é de hoje que o preço da ironia anda em queda, acumulando índices negativos abaixo de zero — como nos termômetros de São Chico. É que a ironia anda tão em desuso, que o trecho logo abaixo poderia ser utilizado para deflagrar a Terceira Guerra Mundial, desde que trocássemos Quincas Borba e Rubião por Trump e alguém do clã Khamenei.
“Se as duas tribos comerem pacificamente as batatas, morrem de fome. (...) A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe as batatas, que ficam sãs e salvas. (...) Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas forças, é que determina a ruína de uma delas. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas!”
Pois é! Esse é o preço da ironia, o item de menor valor no mercado hoje em dia. Por isso, ao vencedor, as batatas.




