Caxias é tão chique que celebra dois aniversários. Em 20 de junho, a festa é por conta da emancipação do município. Também assopramos velinhas no dia 1º de junho, quando Caxias foi elevada à categoria de cidade, coincidindo com a chegada do trem, que nos ligava a Montenegro e a Porto Alegre.
Inspirado na coluna do meu colega de firma Rodrigo Lopes, que republicou uma crônica do Jimmy Rodrigues, um dos jornalistas mais importantes que pisou nesta terra fria cravada no Campo dos Bugres, chamo outra figura ímpar da história caxiense para esse bate-papo: Loraine Slomp Giron.
Em 2010, num desses aniversários da “categoria cidade”, escrevi uma reportagem no finado jornal O Caxiense intitulada 100 anos: cidade dos sonhos, que pode ser lida na íntegra no meu livro de estreia Neblina na Tarde Fria (Liddo Editora/2022).
Entre dezenas de entrevistados — depois de muita insistência — a Loraine me atendeu. Em 2010, na envergadura intelectual de seus 73 anos, ácida e perspicaz na mesma medida, a professora afirmou: “É um culto ser caxiense. Parte da construção mítica é a imagem e semelhança do colono que nunca viveu, só trabalhou. Caxias é uma cidade em que as pessoas sentem remorso por estarem descansando”.
Aliás, remorso cabe tão bem no vocabulário do caxiense típico, amparado na herança cultural e na devoção católica de suas origens. Remorso vem do latim e carrega a ideia de “morder de novo”. Rima com culpa e abre feridas como um castigo interno. Talvez seja por isso que o caxiense raiz foge do lazer, das atividades culturais e do prazer da fruição artística como o diabo foge da cruz.
Autora de As sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul (Educs/1994), obra importante para entender esse movimento com profundas raízes em Caxias, Loraine jamais se esquivou de sua posição política, criticando de gregos a troianos: “Caxias não tem um projeto político. Sempre tivemos prefeitos capatazes de obras, que para serem importantes têm de deixar obras”. Quem não conheceu a Loraine até pode ficar chocado com suas declarações, mas não pode desprezar a relevância de sua visão crítica.
À frente de seu tempo, Loraine compreendeu que Caxias não era uma, mas muitas cidades dentro dela. Caxias não é mais horizontal e colonial. Caxias é vertical e plural, diversa nas etnias e nas formas de amar. Só não enxerga quem finge viver à sombra do Brasil Imperial.
Parabéns, Caxias! Aos 116 anos (de cidade) e 136 (de município), mesmo jovem, é quase sempre a velha Caxias, onde o respeito à faixa de segurança e o uso do pisca são só alucinações do pedestre.




